Alexandrina Maria da Costa

Carlos Mota Cardoso
2020
Por razões estritamente pedagógicas propusemos a nós próprios dividir este estudo em quatro partes: o esboço da história de vida, o corpo, a alma e a sexualidade. Fazemo-lo com a consciência plena da artificialidade do método. O Homem é uma totalidade complexa, indivisível, inserido numa determinada circunstância da qual não pode prescindir para realizar (fazer) a sua própria vida. Porém, a complexidade da vida de Alexandrina Maria da Costa, a modéstia dos nossos conhecimentos sobre a matéria
more » ... s sobre a matéria em apreço, a ausência absoluta de material de estudo sobre a paciente de Balasar (temos entre mãos um magro, embora sério, livro em jeito de biografia), a mediatização do caso em si mesmo, quer seja no plano clínico, quer seja especialmente no plano espiritual, a neutralidade exigida pelo rigor dum estudo deste tipo, tão científico quanto possível, tudo isto e o mais que compreensivelmente nos ultrapassa, impuseram-nos regras de corte e de simplificação. Daí a divisão operada. Abordaremos em primeiro lugar, em voo rasante, a história de vida. Para tanto temos apenas o material já citado -Beata Alexandrina das Edições Salesianas. Em segundo lugar, olharemos a questão do corpo, ou seja, tentaremos estudar as doenças físicas, fisiológicas ou psicossomáticas que afectaram a vida de Alexandrina. Em terceiro lugar, faremos uma análise à saúde mental da jovem mística. Estudaremos a alma, no sentido antropológico-existencial. Usaremos tanto quanto possível o método fenomenológico, inspirado no rigor que garante e na busca da verdade que sempre lhe subjaz. Lição proferida pelo psiquiatra Carlos Mota Cardoso num ciclo de conferências organizada pelo Centro Regional do Porto da UCP, sobre Alexandrina Maria da Costa, conhecida como santa Alexandrina de Balazar. No quarto degrau do nosso estudo ergueremos os olhos ao céu para focar a questão da sexualidade humana. É também da sexualidade humana que se trata quando se analisa, em profundidade, a história de vida de Alexandrina. A reflexão sobre a evolução da sua sexualidade permite-nos desvelar um pouco a evolução da própria personalidade e, quem sabe, talvez desvendar recantos escondidos no mundo complexo da sua singular interioridade, recantos alisados pela luz vivíssima do sagrado. Não espere o ouvinte ou o leitor grandes argumentos, ou acutilantes teorias científicas, sobre as questões nosográficos ou os transtornos físicos e fisiológicos, ou sobre morbilidades de difícil classificação que tocaram o pathos de Alexandrina Costa. Tal revelar-se-ia descabido e fora de propósito, pelas limitações documentais acima apontadas e pelo sentido que se procura alcançar em figurinos analíticos deste tipo. Todavia, isto não invalida que achemos, depois de penetrarmos agudamente na história clínica em apreço, não obstante o escassíssimo material clínico disponível, e após termos reflectido maduramente sobre o assunto, que não se deva efectuar um exame médico sério e multidisciplinar, físico e psíquico, por forma a esclarecer com a solidez possível o que se passou realmente com esta enigmática mística. Era a melhor homenagem que prestaríamos ao médico que, de certo, mais e melhor a estudou, Henrique Gomes de Araújo "[...] a abstinência de líquidos e anúria (escreve Araújo), deixam-nos perplexos, aguardando que uma explicação faça a verdadeira luz". 1 A paciente Alexandrina Costa foi ao longo da vida observada por vários médicos. Sobre ela e a sua história clínica foram elaborados diversos pareceres, dois ou mais relatórios. Todavia, infelizmente, não tivemos acesso a nenhum deles. Tal aproximação a documentos clínicos fidedignos revelar-se-ia absolutamente decisivo para garantir um mínimo de credibilidade científica ao presente escrito. De todo este estudo, sobra apenas o nosso crédito pessoal e a nossa açamada especulação clínica, que, convenhamos, é muito pouco.
doi:10.34632/humanisticaeteologia.2012.8643 fatcat:p3kfxjqvkba77dtmhkbj3japnq