As políticas de educação e de qualificação dos jovens e adultos e a transversalidade no currículo

Adriana Valéria Santos Diniz, Francesc Jesús Hernàndez i Dobon
2009 Revista Espaço do Currículo  
75 RESUMO A política de educação de adultos quer no Brasil, quer em países da Europa, como é o caso da Espanha, registram avanços, ao tempo que registram ainda significativos índices de abandono escolar e/ou baixa participação dos adultos em processos formativos. O presente artigo apresenta os estudos biográficos, no marco da teoria da biograficidade (Alheit e Dausien) e dos estudos sobre transições (Casal e De La Nuez) como instrumental teórico e metodológico capaz de propiciar a análise das
more » ... líticas públicas desde o sujeito, nesse sentido, de buscar compreender os nexos entre o âmbito macro (política educativa) e o micro (construção biográfica). Para tanto, parte de uma análise sobre a condição do sujeito adulto na sociedade contemporânea, na trincheira das transições entre educação, formação e trabalho. O que se pretende é contribuir para a formulação de políticas públicas educativas para e no trabalho que melhor atendam às necessidades e às expectativas dos sujeitos adultos, na perspectiva da emancipação e da cidadania. Palavras-chave: Educação de Adultos -Políticas Públicas -Teoria da Biograficidade ABSTRACT The adult education policies either in Brazil or in other European countries, such a case of Spain, register at the same time advances and significant indices of drop out and/or low participation in adult formative processes. This paper presents the biographical studies in the framework of the biographic theory (Alheit and Dausien) and transitional studies (Casal e De La Nuez) as a theoretical and methodological tools able to propitiate the analysis of the public policies since the individual perspective, to seek to understand the links between the macro (educative policies) and the micro (biographic construction) scope. Thus, start from an analysis on the condition of the adult subject in contemporary society, in the trench of the transitions between education, training and work. What we pretend is to contribute to the formulation of the education public policies for and in work that best meet the adult subject needs and expectations, in terms of emancipation and citizenship perspective. 76 1. INTRODUÇÃO As políticas públicas educativas e formativas para o sujeito adulto, como sujeito social, vivem hoje no Brasil momento privilegiado de aprofundamento e debate em função da VI CONFINTEA 2 . Entre as várias e relevantes questões colocadas, aparece uma relativa aos sujeitos da EJA. Compreende-se que conhecendo melhor esses sujeitos, suas realidades, necessidades, expectativas e metas referentes ao educativo-formativo, melhor poderá ser construída e ofertada uma política pública adequada a esse segmento social. Essa preocupação não é nova, aliás, é o centro nodal da produção freireana, mas o fato indica a relevância do tema e aponta a necessidade de se entender melhor, de forma renovada e permanente, quem são os sujeitos do processo educativo, em cada contexto e em cada tempo, nesse caso os adultos, como sujeitos ativos de plenos direitos, tanto no campo das políticas públicas educativas como no campo científico. Na atualidade, são vários os avanços na formatação das políticas educativas dirigidas aos adultos, quer no Brasil, quer em países da Europa, como é o caso da Espanha. No entanto, registra-se ainda certa fragmentação e diversidade de perspectivas na oferta da educação de adultos. De maneira breve, podemos assinalar alguns aspectos: diversidade de organismos governamentais responsáveis pela oferta formativa, notadamente o Ministério da Educação (políticas de educação) e o Ministério do Trabalho (políticas de qualificação profissional); diversidade de perspectivas, como a compensatória, entendida apenas como escolarização, ou como aprendizagem ao longo da vida, como direito do adulto à aprendizagem permanente, o que inclui a escolarização como formação, mas a extrapola, incluindo níveis mais elevados de formação, como a formação profissional e a Universidade 3 . Além do mais, o AS POLÍTICAS DE EDUCAÇÃO E DE QUALIFICAÇÃO DOS JOVENS E ADULTOS E A TRANVERSALIDADE NO CURRÍCULO Adriana Valéria Santos Diniz 77 sujeito adulto pode estar considerado ou não no centro da formulação da política pública 4 . Tudo isso reforça a necessidade de se problematizar e investigar como e de que maneira a formatação das políticas educativas se constrói e se consolida em função das necessidades e expectativas dos sujeitos sociais, nesse caso do sujeito adulto. Apesar da política pública no Brasil se estruturar como EJA, ou seja, como Educação de Jovens e Adultos, o nosso olhar se dirige especificamente sobre o adulto, sobre sua condição na sociedade contemporânea, de maneira particular em relação às transformações no mundo do trabalho e no mundo educativo-formativo. Consideramos que o adulto vive hoje uma encruzilhada; como sujeito social, vive entrincheirado. De um lado, as exigências crescentes de formação, na perspectiva das aceleradas transformações no campo do conhecimento e da aprendizagem ao longo da vida; do outro lado, o mundo do trabalho também se re-configura a partir de um crescente processo de transformações impondo mudanças na formação e na gestão das aprendizagens profissionais. O adulto, em função da sua trajetória formativa e profissional e também de seu posicionamento socioeconômico, transita entre esses dois mundos de diversos modos, contínuo e complementar, descontínuo e intermitente, inexistente ou negado. A educação, formação e trabalho são campos sociais sobre os quais impactam de forma bastante significativa as permanentes e aceleradas transformações (culturais, tecnológicas, políticas, econômicas...) da sociedade contemporânea. Daí que, ainda que tema clássico de estudos e pesquisas no campo sociológico e pedagógico, o seu estudo assume contornos e conteúdos atuais diferenciados, com o advento das inovações no campo das tecnologias, das filosofias de gestão e dos processos de globalização, que, por sua vez, geram implicações e novas demandas para educação e para a formação profissional. _______________. «Trabalho, conhecimento, consciência e a educação do trabalhador: impasses teóricos e práticos», en GOMES, Carlos Minayo et al. 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doi:10.15687/rec.v2i1.3684 doaj:e16daa5503154dc1b8502552f0a63c70 fatcat:iqrxl7xyh5ehhlgayyqaf4qsjm