Rios Vermelhos: perspectivas e posições de sujeito em torno da noção de 'cabano' na Amazônia em meados de 1835 [thesis]

Leandro Mahalem de Lima
Esta pesquisa situa-se na interface entre os estudos antropológicos e historiográficos acerca da Amazônia brasileira, e pretende se utilizar de métodos e perspectivas de ambas as disciplinas. Seu objetivo é produzir uma interpretação sobre do complexo de eventos belicosos ocorridos em tal região em meados da década de 1830, que se convencionou denominar em sua totalidade como a cabanagem. Este estudo fundamenta-se em fontes primárias: documentação oficial, relatos de viajantes, literatura e
more » ... s, literatura e análises da época, mapas históricos, entre outros. Com base em tais fontes e no pensamento sobre o tema pretende-se aqui, primeiramente, demonstrar que a noção de cabano, que posteriormente passou a caracterizar a totalidade das disputas e a perspectiva dos rebeldes, era operante no período. Assim, o primeiro esforço da pesquisa é situar tal noção em seus sentidos e usos na própria época. Defende-se aqui que o cabano não parte de um ou múltiplos coletivos de agentes autoidentificados como tais, mas sim de seus próprios contrários e antagonistas, autoidentificados como legalistas, que se consideravam a si mesmos os representantes dos homens de bem, da civilização e da humanidade. Cabano, em seu uso na época, era uma expressão pejorativa, forjada para caracterizar a unidade dos contrários da legalidade, passíveis de serem legitimamente exterminados, capturados para trabalhos forçados, ou expulsos de suas próprias terras. Deste modo, o primeiro objetivo deste trabalho é descrever e detalhar a produção de tal estratégia dirigida contra todos aqueles que estavam fora do pacto da legalidade, no território amazônico. E o segundo, é tentar situar e discorrer sobre quem eram, como se auto-identificavam e o que pretendiam os ditos cabanos, neste amplo complexo de confrontações armadas que abrangeu toda a Amazônia brasileira da época. ABSTRACT This research stands on the interface between the anthropological and the historical studies about the Brazilian Amazon, and intends to utilize methods and perspectives of both disciplines. Its ultimate aim is to produce an interpretation about the complex of warlike events occurred in this region over the years 1830, which are conventionally designated in its totality as the cabanagem. This study is based on primary records: official documentation, travelers' accounts, literature and analyses of the epoch, historical maps, among others. Based in such sources, and on the recent studies about the theme, the goal here is to demonstrate that the notion of cabano, which latter turned to characterize the totality of the conflicts and the perspective of the rebels, was operant in the epoch. So, the first effort of this research is to situate the notion (its senses and usages) in the proper epoch. It is defended here that the cabano does not come from one or multiple collectives of agents autoidentified as such, but from their on contraries and enemies, auto-identified as legalistas, which considered their own selves as the true representatives of the good man, the civilization and the humanity. The cabano, in its usage in the epoch, was a derogatory expression, forged to characterize the unity of the contraries of the legalidade, which could all be lawfully exterminated, captured for forced labor, or expelled from their own lands. Therefore, the first objective of this piece of work is to describe and to detail this strategy droved against all the ones who were out of the pact of the legalistas, in the Amazonian territory. The second one is an attempt to situate who were the so called cabanos, which were their autoidentifications and what were their intentions, in this complex of armed confrontations which comprised all the territory of the Brazilian Amazon of the epoch. AGRADECIMENTOS Tenho muito a agradecer a muitas instituições e pessoas, sem as quais este trabalho não teria sido possível. Pela importância de cada contribuição singular em minha formação, não me preocuparei em limitar este espaço de expressão de reconhecimento às dádivas (materiais e imateriais) que muitos ofertaram a mim ao longo de minha vida e que incidiram diretamente na confecção deste trabalho. De antemão, peço desculpas aos muitos (as) não citados nominalmente aqui. Agradeço a Universidade de São Paulo e a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP), seus professores, alunos e funcionários, pela experiência universitária crítica; decisiva em minha formação profissional e pessoal. O Departamento de Antropologia e o Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social (PPGAS-USP) por terem acolhido com respeito e seriedade a mim e à minha pesquisa. O Núcleo de História Indígena e do Indigenismo (NHII-USP), e toda a sua equipe, onde trabalhei e pesquisei desde o início de minha graduação em Ciências Sociais. Em todos estes locais, sou grato a todos aqueles que compartilharam diretamente comigo meu processo de formação. Sou imensamente grato à minha orientadora, a profa. Dra. Marta Rosa Amoroso, que me acolheu de forma estimulante. De um lado, sou muito grato às aulas, à monitoria que fiz sob sua orientação, ao apoio, ao respeito, à confiança, à liberdade para criar e à tranqüilidade para produzir que sempre recebi de Marta. De outro, sou grato à seriedade e precisão de suas leituras, críticas, comentários e sugestões, tecidos sempre com muita inteligência, elegância e sutileza. Se houver méritos neste trabalho, uma grande parte deles deve ser atribuída diretamente à sua orientação. Muitíssimo obrigado por tudo. Sou imensamente grato à profa. Dra. Dominique Tilkin Gallois. Agradeço o respeito, a dedicação e a experiência transmitida a mim no âmbito do NHII ao longo destes anos, sempre com a competência, energia e inteligência que lhe são próprias. Além disso, agradeço às aulas, aos diálogos, à orientação durante a Iniciação Científica, bem como aos comentários durante a qualificação. Sou imensamente grato também à profa. Dra. Ana Claudia Duarte Rocha Marques, que desde o início do mestrado têm sido fundamental na tessitura desta pesquisa. Agradeço as aulas, as leituras minuciosas e inteligentes (desde o projeto, passando pela qualificação até seus desdobramentos), os diálogos, as críticas e sugestões, o 11 acolhimento em sua casa no Rio de Janeiro durante um dos períodos de coleta documental, a experiência transmitida a mim durante a monitoria e nos grupos de estudos. Agradeço também aos meus demais professores da pós-graduação: profa. Dra. Beatriz Pérrone-Moisés, prof. Dr. Márcio Silva, prof. Dr. Júlio Assis Simões e profa. Dra. Cecília Helena de Salles Oliveira (Depto. de História). Agradeço também às instituições que me financiaram. À FAPESP agradeço, além das críticas e sugestões dos pareceres, o indispensável apoio material, tanto na Iniciação Científica quanto no Mestrado, sem os quais esta pesquisa não teria sido possível. A CAPES, pelos meses de bolsa no início do Mestrado, antes da aprovação da FAPESP. A Associação dos Professores de Francês do Estado de São Paulo (APFESP), pela bolsa de inverno na Université de Rouen, que me permitiu pesquisar na França. A Pró-Reitoria de Pesquisa da USP, pela bolsa de treinamento em técnicas especializadas, na graduação, que viabilizou meu trabalho no NHII e, consequentemente, a germinação desta pesquisa. Agradeço à solicitude de pesquisadores de diversas instituições que, em diversos momentos, receberam gentilmente minhas solicitações de diálogo durante a confecção deste trabalho. Agradeço nominalmente ao prof. Dr. John Manuel Monteiro (UNICAMP), pelos estímulos e pelo acolhimento de meu trabalho em dois simpósios sobre História Indígena (ANPUH 2004 e 2005). O prof. Dr. José Ribamar Bessa Freire (UERJ) por ter, ainda no início da Iniciação Científica, dado grandes estímulos a este trabalho e por ter dado preciosas indicações em minhas coletas documentais em arquivos cariocas. O prof. Dr. Jean-Pierre Chaumeil e a Mme. Bonnie Chaumeil (EREA-CNRS, Paris), pelo diálogo e pelas sugestões, por terem me recebido com muito respeito e por terem me ajudado durante minhas pesquisas em bibliotecas parisienses. O prof. Dr. Mark Harris (University of St. Andrews, Escócia), pelo diálogo virtual e por ter me fornecido gentilmente documentos e os esboços ainda inconclusos de seus escritos. O Dr. André Machado (FFLCH-USP), pelas discussões e por ter me cedido gentilmente uma cópia de seu trabalho e do compêndio de documentos transcritos e coletados por ele no APEP, que decisivamente complementaram minha própria coleta. A profa. Dra. Magda Ricci (UFPA) por ter me recebido para discutir o tema, durante minha estada em Belém. A Shirley Nogueira (doutoranda UFBA), pelos diálogos produtivos entre um documento e outro durante minhas pesquisas no APEP. Agradeço ao geógrafo Mateus Sampaio, pela ajuda na confecção dos mapas históricos digitalizados. 12 Agradeço imensamente todas as amizades construídas durante a experiência universitária, que enriqueceram muito minha vida. A todos do grupo dos "Quases", sobretudo a Júlia di Giovanni, Ana Beatriz Miraglia, Olívia Janequine e Danilo Paiva Ramos. A Majoí Fávero Gongora, pela amizade e pela gentil leitura dos esboços deste trabalho. A todos da turma de 2005 do PPGAS-USP (além dos já citados, Daniel de Lucca, Catarina M. Vianna, Jessie Sklair, Danila Perucci, Daniela Alfonsi, César Augusto, Fábio Nogueira, Fabiana Maizza e muitos outros dos demais anos), pela experiência compartilhada na pós-graduação, e pelas edificantes críticas e sugestões a este trabalho. Agradeço também a muitos veteranos, muitos já professores, que se tornaram amigos ao longo do tempo e que contribuíram a este trabalho e me estimularam desde a graduação. Nominalmente cito: Rogério Duarte do Páteo,
doi:10.11606/d.8.2008.tde-14052008-151318 fatcat:l2fta6ylube7hijk4w33ofvlv4