Cheiro de rosas e mamãe morta

Elvira Maria Caetano Pereira
1994 Revista Literária do Corpo Discente da Universidade Federal de Minas Gerais  
LETRAS Acordei com tuberculose hoje. Não parei de tossir. Minha gar ganta em fogo. Minha mente também, pensando febrilmente. Sonhos estranhos, pesados, essa noite. E o cheiro de rosas invadia tudo. A sala, os quartos. A cozinha não escapava. Aquele horrível cheiro de rosas, de morte. Não demoraria e as rosas invadiriam também a casa e com seus espinhos estraçalhariam os habitantes. As rosas da mãe. Maria não conseguia pensar com clareza. Talvez estivesse mesmo doente. Com febre. Tinha a exata
more » ... re. Tinha a exata convicção que nascera para morrer tuberculosa. Como aqueles poetas românticos antigos, de olhos ardentes, botando sangue pela boca. Sonhou com dois rapazes que se beijavam na boca como amantes. Ela estava lá. No entanto, os dois con tinuavam se beijando na boca como amantes. E sonhou com dois olhos verdes de gato. a fitavam sem parar. Os olhos dele. Tão selvagem com aqueles olhos. O nome doce. De repente, começou a sentir-se sufocada, abriu os olhos, uma nuvem de perfume passou por cima de sua cabeça. As malditas. Aquele cheiro a fazia pensar em sua mãe morta. Tão antiga e bonita. Lembrava uma estampa de anjo. um cartão postal do início do século. Cheirava a passado: gaveta fechada, com roupas dobradas. Maria sonhara com ela em um caixão de vidro. Branca de neve. Cercada de lírios e lirios e lírios. Pálidos. Brancos de neve. O cheiro deles a sufocava. Talvez não estivesse morta morto não sufoca. As pessoas chegavam, olhavam para o caixão e riam. 11
doi:10.17851/0103-5878.27.25.11-13 fatcat:lcyrdxkvivh7jlgb6eppl7scea