Crítica e poder? crítica social e diagnóstico de patologias em Axel Honneth [thesis]

Nathalie de Almeida Bressiani
Agradecimentos Gostaria, primeiramente, de agradecer à FAPESP por ter financiado essa pesquisa no Brasil, bem como por conceder uma bolsa para a realização de um estágio de pesquisa em Berlim. Agradeço também à CAPES que financiou o primeiro mês deste trabalho, em 2010. Agradeço ainda à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP e à Humboldt Universität zur Berlin por terem propiciado a infraestrutura necessária à realização dessa pesquisa. Ao departamento de filosofia, devo mais
more » ... losofia, devo mais do que um agradecimento pelo apoio institucional. Não fosse pela Mariê Pedroso, assim como pelas cobranças da Maria Helena e pela ajuda de Geni e Susan, não teria cumprido todas as exigências necessárias à conclusão do doutorado no prazo. Esse trabalho não teria sido possível sem a orientação de Ricardo Terra. Sua generosidade e rigor intelectual, bem como disposição e provocações correspondem aos principais incentivos dessa tese. Obrigada por todos os comentários e sugestões, mas principalmente por ter me mostrado o que significa ser um intelectual. Agradeço também pela receptividade e disponibilidade de Rahel Jaeggi, que me orientou durante o período em que estive na Alemanha. O grupo de estudo de Filosofia Alemã, que se transformou no Grupo de Pesquisa Filosofia Crítica e Modernidade no decorrer dessa pesquisa, desempenhou um papel determinante em minha formação e foi central tanto para a delimitação do tema dessa tese, quanto para sua realização. Agradeço a todos aqueles que participaram do grupo nos últimos anos, particularmente a Rosa. Ao se proporem a analisar rigorosamente o texto, mas também a pensar a partir dele, eles não apenas reforçaram meu interesse por filosofia, como me ensinaram a fazer pesquisa. Também o Núcleo de Direito e Democracia, no CEBRAP, e todos aqueles que por lá passaram nesses últimos anos foram centrais para esse trabalho. A pesquisa interdisciplinar realizada por diferentes participantes do grupo, bem como as discussões calorosas que tiveram ali lugar foram indispensáveis para o aprofundamento da pesquisa. Agradeço particularmente a Marcos Nobre, pela oportunidade de participar das discussões, bem como pelos comentários, sempre pertinentes. Além dele, contudo, muitos foram os pesquisadores que contribuíram diretamente com o desenvolvimento de meu trabalho e me instigaram a estudar determinados temas. Agradeço, além dele, a A todos os que leram e corrigiram partes desse trabalho em diferentes momentos de sua produção, particularmente aos membros da banca de qualificação, Rúrion Melo e Luiz Repa, cujas sugestões foram muito importantes para a delimitação e o desenvolvimento da questão aqui abordada. Agradeço também a Raquel Krempel, que desde a graduação me instiga a organizar claramente os argumentos e a pensar para além da leitura estrutural de textos. Espero ter conseguido, pelo menos em alguma medida. A Monique Hulshof devo muito mais do que um agradecimento (e, provavelmente, algum dinheiro). Obrigada por ouvir minhas divagações e sempre ajudar a dar uma direção a elas. Mais do que isso, agradeço por toda a ajuda com a tese e pelos incentivos, sem os quais certamente não teria terminado. Obrigada. Por fim, gostaria de agradecer a minha família, não apenas pelo apoio, mas também e principalmente pelo incentivo de sempre. Se não fosse pelos meus pais, José Carlos e Ana Helena, e pela minha irmã, Danielle, nunca teria sequer começado -quem dirá terminado -essa tese. Obrigada por tudo. A Bruno Eduardo Silva, que me acompanha desde antes do início da graduação, os agradecimentos vão muito além dessas linhas. Obrigada por acreditar sempre em mim. Resumo Em Crítica do Poder, Axel Honneth defende que aqueles que buscam realizar o projeto da teoria crítica têm de desenvolver um quadro conceitual que seja capaz de compreender tanto as estruturas da dominação social como os recursos sociais necessários à sua superação prática. Partindo de uma reconstrução do percurso de Honneth até Luta por Reconhecimento, procuramos inicialmente mostrar que a teoria do reconhecimento corresponde à tentativa do autor de realizar essas tarefas. Explicitando, no entanto, que seus esforços nesse momento se concentram nas tarefas de reconstruir a dinâmica normativa das relações intersubjetivas e o interesse estrutural dos seres humanos pelo reconhecimento, defendemos que Honneth acaba perdendo de vista o fato de que as relações sociais estão perpassadas por relações de poder. Retomando então as críticas dirigidas a Honneth por diversos autores, argumentamos que, tal como formulada em Luta por Reconhecimento, a teoria honnethiana do reconhecimento depende de uma compreensão redutora do poder. Tendo em vista que, após seu debate com Nancy Fraser, Honneth reconhece esse problema e reformula importantes elementos de sua teoria, dedicamos parte da tese à análise dessas reformulações. Ao fazermos isso, nosso objetivo é mostrar que, embora procure dar conta da relação entre reconhecimento e poder, Honneth acaba se afastando, em seus textos mais recentes, da noção de dominação social. Defendendo, por fim, o projeto crítico esboçado em Crítica do Poder, dedicamos a última seção da tese à discussão do trabalho de três diferentes representantes de uma nova geração de teóricos críticos, cujo objetivo parece ser exatamente o de realizá-lo. Palavras-chave Axel Honneth; crítica imanente; poder; dominação social; reconhecimento; reconstrução normativa Abstract In Critique of Power, Axel Honneth argues that those who seek to realize the project of critical theory today must develop a conceptual framework able to comprehend both the structures of social domination and the social resources for its practical overcoming. Starting with a reconstruction of Honneth's theoretical development until Struggle for Recognition, our first aim is to show that the theory of recognition corresponds to the author's attempt to fulfill these tasks. Pointing out, however, that his efforts at this time are concentrated on the tasks of reconstructing the normative dynamics of intersubjective relations and the structural human interest for recognition, we argue that Honneth ends up losing sight of the fact that power permeate social relations. Resuming, at this point, the criticisms directed at Honneth by various authors, we aim to show that his recognition theory, as presented in Struggle for Recognition, depends on a reductive understanding of power. Considering that, after his debate with Nancy Fraser, Honneth acknowledges this problem and reformulates important elements of his theory, we devote part of this thesis to an analysis of the different strategies deployed by Honneth with this purpose. By doing this, our goal is to show that even thou Honneth tries to account for the relationship between recognition and power, in his most recent texts, he seems to abandon the concept of social domination. Advocating, finally, for the critical project presented by Honneth in Critique of Power, will devote the last section of the thesis to discuss the work of three different representatives of a new generation of critical theorists, whose purpose seems to be exactly to realize it. dos pontos cegos do diagnóstico apresentado por Habermas em Teoria da Ação Comunicativa. Assim, se a ética do discurso desenvolvida por Habermas permitiria, por um lado, a superação das confusões normativas decorrentes da análise foucaultiana do poder, por outro, seu diagnóstico de patologias sociais parece ser colocado em questão por essa mesma análise. Partindo de uma discussão dos problemas presentes nas teorias de Habermas e Foucault, bem como das contribuições realizadas por elas, Fraser estabelece então dois objetivos que seriam centrais àqueles que procuram renovar hoje o projeto da teoria crítica: a elaboração de um diagnóstico capaz de abarcar as diferentes formas de dominação e a formulação de critérios normativos imanentes por meio dos quais seria possível fazer sua crítica. A questão que parece surgir com isso é, então, como seria possível combinar os insights empíricos de Foucault com os insights normativos de Habermas em uma teoria que conseguisse descrever, mas também criticar as diferentes formas existentes de poder. A realização de tal projeto, contudo, não parece ser simples. Afinal, ainda que cada um dos dois autores dê passos importantes em direção à realização de uma dessas tarefas, eles partem, para isso, de compreensões distintas acerca das relações intersubjetivas. 6 Ao defender que o poder está presente até mesmo nas mais finas capilaridades do corpo social, Foucault recusa que haja práticas sociais que estejam livres dele e que possam, portanto, servir de base para a crítica social. O diagnóstico de que o poder perpassa igualmente todas as relações e práticas sociais parece, assim, impedir o estabelecimento de qualquer critério normativo. Como defende Habermas, nesse sentido, "o conceito foucaultiano de poder não autoriza a noção de um contrapoder ... todo contrapoder move-se no horizonte de poder combatido por ele e transforma-se, tão logo saia vitorioso, em um complexo de poder que provoca um outro contrapoder" (Habermas, 2002c, p. 393). 7 Por outro lado, se analisamos a teoria crítica de Habermas, notamos que, ao reconstruir as estruturas normativas da ação comunicativa, ele acaba 6 Mesmo partindo de uma questão distinta, relacionada aos processos de formação da identidade, Rahel Jaeggi explicita os problemas gerados pela incompatibilidade existente entre duas diferentes formas de compreender as relações intersubjetivas, isto é, entre um paradigma positivo e de um negativo. Embora esse não seja seu objetivo, ao distinguir essas duas formas de compreender as relações intersubjetivas, Jaeggi mostra que a versão negativa fornece explicações de determinados fenômenos sociais, mas não consegue criticá-los adequadamente, bem como que a versão positiva é capaz de explicitar as bases da crítica da dominação, mas não a descreve adequadamente (Jaeggi, 2013). 7 Foucault parece concordar com a análise de Habermas ao afirmar, em "Nietzsche, a genealogia e a história", que "a humanidade não progride lentamente, de combate em combate, até uma reciprocidade universal, em que as regras substituiriam para sempre a guerra; ela instala cada um de suas violências em um sistema de regras, e prossegue assim de dominação em dominação" (Foucault, 2006a, p. 25)
doi:10.11606/t.8.2015.tde-11122015-130851 fatcat:wmabpczlanhhld6qda5cebfjmu