Possibilidades de uso da hermenêutica bíblica negra na IECLB

Gunter Padilha
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um ato de piedade e graça recebida, sendo bem aproveitado, o escravo receberá a recompensa: a salvação. Em Vieira o trabalho escravo está associado à paixão e morte de Cristo. A paixão teve dois fins: remédio universal para todos e exemplo, que sem dúvida, é para @ escrav@. No sermão citado acima, Vieira, estabelece regras para que os escravos se conformem com seu estado. Cristo é o exemplo. Assim, o trabalho se torna santo e meio de martírio. Outra regra refere-se à obediência e ao padecimento
more » ... ia e ao padecimento com paciência. Aqui se junta o corpo. O corpo é a parte mais vil do escravo, enquanto a alma é nobre. Obediência aos senhores, sofrer na carne (corpo) os açoites e grilhões e submeter-se ao trabalho com muita paciência é cativeiro. Mas tudo isso é graça da parte de Deus. Desta forma, se ad q u iria a liberdade e tern a. E ste pensamento de Vieira impinge n@ escrav@ desprezo pelo mundo secular e pelo corpo. Este desprezo pelo corpo conjugado com o sofrimento é resgate da parte nobre: a alma. Benci será mais humanista que Vieira. Entende que em primeiro lugar deve-se dar o pão. O pão de cada dia inclui sustento e vestimenta. Sem o pão, a mão-de-obra não agüentará cumprir a sua obrigação. Há uma certa preocupação em torno do corpo que, de uma forma ou outra, culminará no controle dos escravos pelo trabalho. O trabalho é a norma que dá descanso ao senhor e afugenta a mãe de todos os males, o ócio. A exclusão da pessoa negra no discurso ideológico moralista de Benci se dá através da categoria de senhor e escravo. Uma vez escravo, sempre escravo, pois, como descendentes do pecado de Cam, jamais estarão livres. Seu estado é de inteira sujeição. Em Vieira, a exclusão se dá na redução d@ escrav@ a um ser qualquer quando diz que a parte mais nobre que ele tem é a alma. O corpo é um mero instrumento para obter a salvação, sendo portanto incapaz de exercer outras funções seculares que não fossem o trabalho sofrido e a im ita tio Deo. A partir dos padrões de cultura estabelecidos, é negado aos africanos o direito de cultus: "o que se trabalha sobre a terra; culto: enterro dos mortos; ritual em honra dos antepassados. A teologia européia (Vieira e Benci) justifica a escravidão e a Bíblia será a fonte que irá, paulatinamente, mostrar qual é o lugar d@ escrav@ e como ele deve se comportar. Textos bíblicos como: IPe 2.21, Mt 1.11, Ef 5.5, Rm 7.14, Ef 4.8, e tantos outros no Antigo e Novo Testamento irão colocá-l@ no devido lugar que lhe é atribuído dentro dessa sociedade. @ negr@, paulatinam ente, vai perdendo a sua alter idade e introjetando a idéia de que ser branco é o sta tu s a ser alcançado. Isto, porém, só é possível na alma, porque na epiderme será sempre negr@. O desafio hoje é perceber as nuanças desta história e a partir dela desenvolver uma teologia que contemple a sua dor, sofrimento, seus ritmos e danças; que contemple o seu aparato imaginário-simbólico-religioso. Neste sentido, nem Vieira nem Benci foram capazes de se expressar. A fé cristã torna-se uma experiência com e do divino imposta e não proposta. * O autor, Adriano Otto, é estudante de teologia e neste semestre realiza seus exames de conclusão do curso.
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