MEIRINHOS, JOSÉ FRANCISCO – Metafísica do Homem. Conhecimento e vontade nas obras de psicologia atribuídas a Pedro Hispano (século XII), Edições Afrontamento, Porto, 2011, 253 pgs

José Acácio Castro
2020
José Francisco Meirinhos, um dos mais destacados medievalistas portugueses contemporâneos, acaba de publicar mais uma obra, esta sobre as dimensões antropológica e a gnoseológica em Pedro Hispano. Estas estão essencialmente condensadas em duas obras: o tratado Ciência do livro da alma e o Comentário sobre o De Anima de Aristóteles. São obras que se situam no século XIII, um dos períodos mais significativos da História da Filosofia e do Pensamento Cristão. No início desse século em cidades como
more » ... lo em cidades como Paris ou Bolonha a partir das escolas-catedrais surgem as universidades, onde através do estudo e da discussão técnica e precisa das obras, que viria a designar-se escolástica, se foi erigindo o prelúdio das ciências modernas. Neste contexto, Aristóteles era o autor clássico de referência mais estudado e comentado e entre as suas obras de Física, Metafísica, Ética e Política, também era amplamente estudado o De anima. Esta versando o conhecimento da alma enquanto causa e princípio explicativo da vida, da sensação e do conhecimento, bases de todo o conhecimento antropológico e gnoseológico. O título grego da obra aristotélica Peri psyches viria aliás a ser origem etimológica e mesmo conceptual da designação moderna, Psicologia. A tradução desse tratado no século XII, enquadrada na grande fase das traduções da obra aristotélica, viria a ser essencial para o surgimento dos estudos comentários e discussões que o século XIII propiciaria sobre o tema sensível da relação entre a alma e as diferentes faculdades humanas, e entre eles, a obra de Pedro Hispano, uma das mais divulgadas e conhecidas na época.Pedro Hispano, que viria a tornar-se papa, é por muitos considerado o mais importante pensador português da Idade Média, para o que muito contribuiu a sua obra sobre Lógica, e estas agora versadas. O Ciência do livro da alma e o Comentário sobre o De anima de Aristoteles são obras diferentes quer no modo de exposição quer nos conteúdos tratados oferecendo ambas uma perspectiva multifacetada sobre a Metafísica do Homem, sugestivo título desta obra que sinteticamente exprime as concepções antropológicas da época. Particularmente no Ciência do livro da alma, talvez a mais original entre as duas obras, é amplamente estudada a possibilidade de constituir uma ciência da alma, articulando-se com os diversos mecanismos da sensação, enquanto base do conhecimento, do livre-arbítrio e da finalidade da vida humana, abrindo-se à dimensão metafísica e à transcendência. A obra do Professor José Meirinhos divide-se em três capítulos: "Capítulo I -Ciência da alma racional, ciência do homem; Capítulo II -A natureza humana; Capítulo III -O homem microcosmo no Scientia libri de anima: uma antropologia situada", enquadrados por uma introdução, uma conclusão e uma exaustiva bibliografia de fontes e estudos. Elaborado com erudição e rigor, não se coibindo da apresentação de esquemas elucidativos, quando necessário, é também apoiado por um excelente aparato crítico. De particular relevo do ponto de vista hermenêutico é o último capítulo onde o autor interpreta a antropologia de Pedro Hispano como uma antropologia situada, distinguindo-se por essa via doutras propostas filosóficas da época. Neste sentido lê-se na página 228: "Na Scientia, Pedro procura construir uma antropologia unitária a partir do dinamismo e da hierarquia das faculdades da alma, cuja unidade e eminência como ciência resulta também da própria superioridade ontológica da faculdade humana, o intelecto, que integra todas as faculdades que lhe são inferiores, através das quais rege ou impera sobre o próprio corpo que lhe é conexo e que não é
doi:10.34632/humanisticaeteologia.2011.8631 fatcat:pebdh6zoxvf3zpqyel2x4h2ori