O divã no palco: discurso terapêutico, indústria cultural e a produção de bens culturais com pessoas comuns [thesis]

Maíra Muhringer Volpe
RESUMO Não é raro encontrar na televisão brasileira, e mesmo na rádio, emissões que trazem depoimentos de pessoas comuns comentados por especialistas, sobretudo, psicólogos. Desentendimentos conjugais, problemas com filhos, desavenças com vizinhos, conflitos no trabalho, são alguns dos temas exibidos. Trata-se de versões cujo formato orienta também produções estadunidenses, europeias e latino-americanas, cuja temática, apropriada pela indústria cultural nacional, difunde um discurso
more » ... iscurso terapêutico. Embora as ideias de manipulação dos participantes e de sensacionalismo na busca por audiência sejam justificativas para a veiculação desse tipo de emissão, existem outros sentidos que podem ser atribuídos quando se aproximam as razões que mobilizam pessoas a dar visibilidade a histórias e questões consideradas de foro íntimo. Foram esses outros sentidos aqui investigados. Uma abordagem, portanto, a partir dos participantes de No Divã do Gikovate (Rádio CBN), Casos de Família (SBT) e Márcia (Bandeirantes) norteou a pesquisa apresentada. A interação social no palco, nos bastidores e na plateia foram vias de acesso a dois grupos sociais envolvidos na produção e no consumo desses bens culturais. O estudo dessas interações apontou lógicas diferentes de produção: uma "demanda espontânea", entre aqueles que integram as emissões animadas pelo Dr. Gikovate, e um "sistema de produção da exibição", ou seja, uma cadeia produtiva por trás das emissões televisivas que abarca tanto profissionais formalmente contratados pelas emissoras quanto pessoas engajadas informalmente. Tais interações indicam ainda grupos que possuem universos mentais distintos, com repertórios expressivos e recursos afetivos específicos. Seus integrantes apropriam-se do discurso terapêutico difundido transformando-o em senso prático para sua vida afetiva. ABSTRACT It's not rare to find in Brazilian television and radio, transmissions that bring ordinary people's testimonials commented by experts, mainly psychologists. Marital fights, problems with children, quarrels with neighbors are some of the themes presented. Those are Brazilian versions of programs which circulate around the United States reaching Latin American and European countries, which the thematic, taken by their own national culture industry, diffuses a therapeutic discourse. Although the participants' ideas manipulation and the sensationalism in the quest for audience are explanations for placing this kind of transmission, there are other senses that may be attributed when one gets closer to the reasons that mobilize those people to bring out stories and affairs once considered intimate. These other senses were the ones studied here. Thus, an approach close to that of the participants of No Divã do Gikovate (Gikovate's Divan, Radio CBN), Casos de Família (Family Affairs, SBT) and Márcia (Marcia, Bandeirantes) guided this research. The social interactions on stage and backstage were ways to reach these two social groups involved in the production and consumerism of these cultural products. The study of these interactions led to different logics of production: a "spontaneous demand" between those who compose the transmissions cheered by Dr. Gikovate, and a "production system of exhibition", which means a productive chain behind the television transmissions that reach professionals formally hired by the networks and people informally involved. Those interactions have also indicated groups with different mental universes, with specific expressive repertoire and affective appeal. Their integrants employ the therapeutic discourse, transforming it into logic of practice to be used in their affective life. KEYWORDS Ordinary people; Brazilian culture industry; Therapeutic discourse; Talk show Radio and Television AGRADECIMENTOS Muitas pessoas contribuíram para este trabalho -desenvolvido ao longo de quase cinco anos entre a pesquisa e a elaboração da tese -às quais quero expressar minha profunda gratidão: A todas as entrevistadas e todos os entrevistados que de maneira generosa aceitaram conversar comigo e compartilharam suas experiências dentro e fora das emissoras; Aos produtores, ao produtor executivo e à assistente de direção do SBT, aos produtores da Band e da CBN, bem como à Christina Rocha, à Dra. Anahy D'Amico e ao Dr. Flavio Gikovate, que gentilmente falaram sobre seus trabalhos e as emissões; ao Paulo Henrique da Silva, quem primeiro me apresentou o mundo da televisão e me ensinou a chegar até ele; À professora Irene Cardoso, faltam palavras para agradecer tudo o que aprendi nesses muitos anos de orientação. Agradeço por seu modo atencioso, pelas conversas estimulantes, pela autonomia e pela confiança para realizar este trabalho; Ao professor Sergio Miceli, que em muitos momentos participou, de perto, de minha formação, desde a graduação até o doutorado e o estágio doutoral; aos professores e colegas do Grupo Temático "Formação do campo intelectual e da indústria cultural no Brasil contemporâneo", fundamental para trilhar algumas das discussões realizadas na tese; ao professor Laurindo Leal Filho, pela leitura atenta e pelos importantes comentários feitos em meu exame de qualificação; aos professores Alexandre Bergamo e Ana Lúcia Freitas Teixeira por toda a ajuda; Aos professores Nadya Araújo Guimarães e Angelo Soares, pela generosa leitura que fizeram do terceiro capítulo. Seus comentários foram indispensáveis para que eu melhor azeitasse a argumentação ali desenvolvida. Com suas sugestões, senti-me mais à vontade para analisar o mundo da produção dos programas televisivos como, também, das relações de trabalho; ao Angelo agradeço ainda todo o estímulo bibliográfico desde seu curso em 2009; À professora Sabine Chalvon-Demersay, por me receber e me orientar em meu estágio doutoral no Centre d'Études des Mouvements Sociaux, da École des Hautes Études en Sciences Sociales; ao professor Afrânio Garcia por sua calorosa acolhida e amizade; à professora Anne-Marie Thiesse pelas indicações bibliográficas e documentais; aos amigos brasileiros, de Paola Sierra -, que animaram intelectual e culturalmente minha estadia em Paris; ao Leonardo Gomes, por me apresentar as pesquisas do grupo coordenado pela professora Vera França; Aos amigos do grupo de estudos ainda sem nome, que compartilham minhas inquietações teóricas -Regina Cariello, Pedro Mancini, Juliana Andrade Oliveira e Mariana Thibes -, por nossas prestimosas discussões; Aos amigos, colegas e funcionários, da Biblioteca Florestan Fernandes, que acompanharam o cotidiano de meu trabalho, Carlos e Marinês especialmente; aos funcionários do Departamento de Sociologia -Angela, Vicente e Gustavo -sempre prestativos para desenrolar os trâmites misteriosos que envolvem a burocracia acadêmica; À professora e amiga Malu Zoega, por ser minha leitora mais crítica e exigente; à Lya Paes de Barros por acompanhar mais uma vez meus passos; à Luciana Dimitrov por me socorrer no momento final da tese; Carol Chasin e Dimitri Pinheiro, Diego Azzi e Alexandre Pires, pelo apoio afetivo e trocas estimulantes; Aos meus pais, Marisa e Otávio, a Nadia e Pedro Dimitrov, aos meus irmãos de sangue e aos eletivos, por todo incentivo, companhia e solidariedade; Ao Edu, pela cumplicidade neste trabalho e em tantos outros projetos de vida. Sou grata à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), pela bolsa PDEE concedida para o estágio doutoral na EHESS, e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), pela bolsa de doutorado disponibilizada durante todo o período no Brasil. É nos limites, nos extremos, na periferia da realidade social que a indagação sociológica se torna fecunda, quando fica evidente que a explicação do todo concreto é incompleta e pobre se não passa pela mediação do insignificante. É nesses momentos e situações de protagonismo oculto e mutilado dos simples, das pessoas comuns, dos que foram postos à margem da História, do homem sem qualidade que a sociedade propõe ao sociólogo suas indagações mais complexas, seus problemas mais ricos, sua diversidade teoricamente mais desafiadora. São os simples que nos libertam dos simplismos, que nos pedem a explicação científica mais consistente, a melhor e mais profunda compreensão da totalidade concreta que reveste de sentido o visível e o invisível. O relevante está também no ínfimo. José de Souza Martins A sociologia talvez não merecesse uma hora de esforço se ela tivesse por finalidade apenas descobrir os cordões que movem os indivíduos que ela observa, se esquecesse que lida com os homens, mesmo quando estes, à maneira das marionetes, jogam um jogo cujas regras ignoram, em suma, se ela não se desse à tarefa de restituir a esses homens o sentido de suas ações.
doi:10.11606/t.8.2013.tde-04112013-131315 fatcat:rnjwjx6zsjg6zkkkjjanh3k2zi