Pedras que rugem: notícias sobre sete Povos das Missões

Luiz Claudio Bittencourt
2010 Revista Extraprensa  
FIGURA 01 -Ampliação de querubim nascente próxima a São Miguel. Fotografia de Paulo Canguçu Fraga Burgo. Caminhar pelas ruínas dos sete povos missioneiros do Brasil é tarefa inquietante: provoca angústia melancólica e simultâneos desejos de juntar os fragmentos do território escolhido pelos jesuítas para a utopia civilizatória da selva e do selvagem no sertão que fora paraguaio. O sonho edênico ao lado do gentio catequizado é suplantado pelos interesses laicos do saque espanhol e lusitano de
more » ... ol e lusitano de todas as riquezas possíveis. Entre elas, a mais significativa, é claro, a montanha de prata do Potosi, mas havia também a própria terra e seus moradores, únicos capazes de delimitar fronteiras de posses. A tragédia do resultado hoje observado revela, no primeiro momento, o estranhamento do mundo colonial secular interessado na extração máxima das riquezas possíveis canalizadas em direção à metrópole e à vida privada do colonizador. Se os jesuítas desejavam almas em troca da civilização papal, o colonizador local ou metropolitano deseja apenas corpos e terras. Revista CPC, São Paulo, n. 9, p. 99-116, nov. 2009/abr. 2010 100 O que aconteceu durante poucos séculos para formação desta paisagem desolada em que pedras lavradas em geometrias regulares, estranhas ao ambiente, enfrentam sozinhas o tempo, os homens e a natureza? Restos de colunas, vergas, ombreiras, cunhais... quem sabe? É difícil identificar em rápidas visadas os objetos soltos no cenário apresentado, desenhado em arranjos arqueológicos ou aleatórios. Permanece o efeito ruínas, restos fortes e pesados, remetidos ao passado impreciso, de difícil compreensão e identificação no arranjo geral. FIGURA 02 -Pedra da Ruína de São Nicolau revela exímia qualidade de trabalho sem caracterizar de forma precisa sua utilização. Fotografia de Paulo Canguçu Fraga Burgo. Algumas paredes resistem aqui e ali, sem ordem ou razão. Pedras de várias origens assentadas em aparelhos de cantaria ou rejuntes de argamassas de barro ou de pedras pequenas. Lavadas pelo tempo resistem pela dureza e peso próprios, comprimindo-se ao chão enfrentam a vontade dos locais de limpar tudo em benefício do novo, como o Moderno, quando necessitava apagar para existir. Não há memórias vivas possíveis entre os moradores de passado tão distante e tão etéreo, tudo é estranhamento, do cenário de objetos destroçados. Resta apenas a solidez e o peso das pedras, como leões magros fora do seu ambiente a rugirem de banzo em jaulas estreitas, são fantasmas, pálidas presenças de dignidades e imponências perdidas.
doi:10.5841/extraprensa.v1i1e.111 fatcat:ujpjbidt25h6lhe65sflh4qegy