Política de investigação em saúde no Brasil

Frederico Simões Barbosa
1987 Cadernos de Saúde Pública  
Estamos certos de que o meio médico-científico brasileiro está bastante amadurecido para compreender as razões histórico-sociais que têm mantido este país na condição de inferioridade em que hoje se encontra no campo da saúde. As relações entre saúde e desenvolvimento são bem conhecidas. Há alguns anos, sanitaristas e economistas vêm salientando o papel que o desenvolvimento econômico desempenha no melhoramento dos índices de saúde. De fato, a tecnologia da saúde tem feito imensos progressos.
more » ... ensos progressos. Através desses avanços foi possível erradicar algumas doenças em países em desenvolvimento como o Brasil. Mais recentemente, a noção de "qualidade de vida" como conjunto de condições que assegura ao homem o direito de viver dentro de padrões (materiais e espirituais) adequados e condizentes com sua posição de ser humano, vem pôr em destaque a problemática do privilegiamento do planejamento econômico face à política social. Os agravos à saúde produzidos pelo desenvolvimento econômico desigual, ambicioso, agressivo e selvagem, despertaram grupos conscientes para uma visão humanística da saúde. Não basta apenas eliminar doenças, e reduzir a mortalidade, mas melhorar substancialmente a qualidade de vida. A saúde vem passando, nestes últimos decênios, por uma revolução conceituai. "Hoje, compreende-se muito melhor que se conseguirá, pouco ou nenhum desenvolvimento real, isto é, desenvolvimento sócio-econômico e não apenas crescimento econômico, se o desenvolvimento não estiver centrado no homem". O hiato entre os mundos desenvolvido e subdesenvolvido é cada vez maior, apesar das recentes tentativas, a nível internacional, em sentido contrário. As nações ricas não abrem mão de seus privilégios condenando as nações do hemisfério sul à condição de fornecedores de matériasprimas a preços impostos pelo mercado internacional. O "diálogo norte-sul", as "denúncias das desigualdades" e todos os demais artifícios verbais têm sido apenas panos de fundo no jogo internacional de cartas marcadas: 75% da população do mundo, vivendo em 140 países subdesenvolvidos, é responsável por apenas 20% da produção mundial.
doi:10.1590/s0102-311x1987000300012 fatcat:2lhrxvoah5g2pot3j7sqjo3qbm