Do corpo e do activismo na conjuntura de mercado e consumo
Portuguese

Jorge Olímpio Bento
2009 Portugese Journal of Sport Sciences / Revista Portuguesa de Ciências do Desporto  
RESUMO Na actual configuração da sociedade as pessoas tornaram-se objectos de consumo e reféns da ansiedade. Esta situação é favorecida por uma globalização guiada pela teologia do mercado, bem como pela tendência de intervencionismo e de policiamento dos nossos comportamentos e passos. É sobre este plano de fundo que se instituem uma política e um negócio que exploram o capital da insegurança e do medo. Isso mesmo acontece no domínio das actividades corporais, tendo gerado um poderoso
more » ... m poderoso movimento ideológico e económico que instituem o activismo físico e um totalitarismo higienista e securitário como pedras basilares do estilo de vida urbano. No corpo consumido e consumidor é praticado um controlo sem precedentes e ficam bem à vista a crise da identidade, o mal-estar e as marcas de irracionalidade, de fanatismo, alienação e escravidão que povoam a conjuntura pós-moderna. A máxima do carpe diem, que rege o quotidiano, e o paradigma produtivista, que orienta e desvirtua a ciência, tornaram urgente a necessidade de almejar o equilíbrio e a sensatez, de reinventar a transcendência e de revalorizar o conhecimento de orientação. ABSTRACT About the body and activism in the market and consumption conjuncture In the current configuration of society people have become objects of consumption and anxiety hostages. This situation is favoured by a globalization guided by the theology of the market as well as by the trend of interventionism and policing of our behaviours and steps. It is on this background that it is instituted a policy and a business that exploit the essence of insecurity and fear. That even happens in the field of physical activities, having generated a powerful ideological and economic movement that establishes the physical activism and a hygienist and security totalitarianism as cornerstones of urban lifestyle. In the consumed and consumer body it is practiced an unprecedented control and the identity crisis, the malaise and the marks of irrationality, fanaticism, alienation and slavery that populate the post-modern conjuncture are open to the sight. The maxim of carpe diem, which governs the daily life, and the productivist paradigm, which guides and depreciates the science, made urgent the need to aim for the balance and the wisdom, to reinvent the transcendence and revalorize the knowledge of guidance. Key-words: consumption, fear, body, activism, interventionism, fanaticism, irrationality and servitude, crisis of identity, malaise, need to balance and wisdom, transcendence and knowledge of guidance Rev Port Cien Desp 9(2-3) 203-227 204 O que fazer com este corpo? Onde deve ser enterrado? Ou deverá ser cremado? Que signo lembrará a sua morte? Quem conhece este corpo? Que nome tinha, como era o rosto, quais cicatrizes, como sua voz? De onde vem este corpo? Onde morava, com quem vivia, teria filhos, quem são seus pais? O que fazia este corpo? Com que lutava, o que comia, a quem amava, com quem dormia? De quem é este corpo? De algum vizinho, de algum parente, de alguém distante, talvez o meu? Ronaldo Monte 1 OBJECTOS DE CONSUMO -REFÉNS DO MEDO Como se sabe, a sociedade actual tem a marca do consumo incentivado e generalizado. 2 Todos os seus elementos, animados ou inanimados, são objectos de consumo. Logo os seres humanos também o são; só têm valor e utilidade enquanto conservarem a imagem e forma, as bitolas e performances adequadas e devidamente cotadas, enquanto despertarem atracção e sedução e passarem nas avaliações e comprovações vigentes. Tornam-se totalmente dispensáveis, gastos, desqualificados, acabados e ultrapassados e são carimbados de inadaptados, sem préstimo algum, inúteis, impróprios e mesmo nocivos, à medida que vão perdendo capacidade para se encaixarem no quadro das exigências, bitolas e especificidades fixadas e valoradas pelo mercado. Não se livram desta punição, se deixarem de ser jovens vitalícios, se não lograrem contrariar e atrasar a obsolescência, esconder os traços, sinais e rugas do uso e tempo, renegar a idade e a maturidade a ela inerente, conservar o corpo fiável, apresentar a aparência como essência e ter sucesso no confronto com o vasto e constantemente alterado leque de critérios de validade estabelecidos no fluido código do consumo. Jorge Olímpio Bento Rev Port Cien Desp 9(2-3) 203-227 205 Do corpo e do activismo Rev Port Cien Desp 9(2-3) 203-227
doi:10.5628/rpcd.09.02-03.203 fatcat:e6eas74benhhxg4de4au2ygely