The epigraphic roman habit at The Conventus Lucensis
Hábito epigráfico romano en El Conventus Lucensis

Juan Manuel Abascal Palazón
2016 Conimbriga Revista de Arqueologia  
Resumo: Revisita-se o dossiê epigráfico da cidade romana de Aeminium, a actual Coimbra, integrando-o no seu urbanismo e na sua história. Realiza-se a análise revisória dos suportes epigráficos e dos conteúdos iconográficos e escritos, nomeadamente da onomástica e relações familiares, acompanhada de inferências sobre o estatuto jurídico e perfil social dos indivíduos. Palavras-chave: Sociedade, Cultura, Urbanismo, Lusitânia, Antiguidade. Abstract: The epigraphic dossier of the Roman city of
more » ... ium, the contemporary Coimbra, is revisited and integrated in local urbanism and history. The revision analysis of the epigraphic supports and also of the iconographic and written contents, namely onomastics and family relations, is carried out along with inferences about legal status and social profile of individuals. Página deixada propositadamente em branco Conimbriga, 55 (2016) 57-89 SOBRE A EPIGRAFIA ROMANA DE AEMINIUM Tendo sido na vetusta Universidade de Coimbra que José d'Encarnação exerceu o seu múnus de professor de Epigrafia e onde, com ele, ganhámos autonomia para este fascinante mundo das inscrições antigas, sem as quais não é possível verdadeiramente versar sobre a Antiguidade Clássica, vamo-nos centrar naquelas que respeitam à cidade romana do Ocidente lusitano à qual se sobrepôs a Coimbra hodierna. O panorama da paisagem epigráfica dessa urbe não é hoje substancialmente diferente daquele que se reconhecia em finais da década de 70 do século transacto, quando José d'Encarnação realizou as suas Notas sobre a epigrafia romana de Coimbra (Encarnação 1979), a pretexto das primeiras jornadas do Grupo de Arqueologia e Arte do Centro. De facto, de então até ao presente, às quinze lápides nesse momento arroladas pouco mais há a acrescentar que altere substancialmente o entendimento do hábito epigráfico associado a esta cidade lusitana. Apenas os trabalhos arqueológicos realizados na área do espaço forense da cidade romana, entre os anos 1992 e 1997, permitiram incrementar o número de inscrições, nomeadamente com uma peça escultórica esgrafitada (Carvalho 1998) 1 . É factualmente aceite que a cidade romana que precedeu a Colimbria medieval (Figueiredo 1884, 87-91; Mantas 1992, 513; Alarcão 2008, 27) 2 teve por nome Aeminium. Esta designação toponímica cons-Armando Redentor Sobre a Epigrafia Romana de Aeminium Conimbriga, 55 (2016) 57-89 tava das fontes clássicas (Plin., NH, 4. 113 e 118; Ptol., 5.5 Itin. Anton., 421, 5). Concretamente, Plínio, que igualmente alude à situação do rio que ladeia a cidade, quer como Aeminium (NH, 4. 113), quer como Munda (NH, 4. 115), incluiu-a entre os oppida stipendiaria do Ocidente lusitano, mas, até finais do século XIX, a sua localização esteve sujeita a discussão, precisamente até ao aparecimento, em Abril de 1888, de um monumento epigráfico notável que põe termo à demanda (Figueiredo 1888a). Este corresponde a inscrição descoberta ao fundo da Couraça dos Apóstolos (n.º 1) e que é uma dedicatória realizada a Constâncio Cloro pela ciuitas Aeminiensis 3 . O achado resolve definitivamente a questão da localização do oppidum citado por Plínio, mas permite abrir simultaneamente duas frentes de investigação: uma referente ao seu significado arqueológico perante a estrutura urbana da cidade romana, outra vinculada à discussão do estatuto desta em face da sua designação como ciuitas. No respeitante ao último aspecto, a questão que se tem colocado aos investigadores prende-se exactamente com a discussão do estatuto jurídico que assumiu a cidade: significa a designação ciuitas Aeminiensis atestada epigraficamente no dealbar do século IV que não terá sido privilegiada com o estatuto municipal? daí para o assento que foi da Aeminum romana, por volta de 585, a qual acarreta que a designação eclesiástica paulatinamente ofusque os pergaminhos cívicos desta urbe, culminando, plausivelmente durante o domínio muçulmano, na alteração toponímica que sustenta o nome actual (Mantas 1992, 513; Alarcão 2008, 71-79). 3 Encarnação (1979, 173) precisou a datação do monumento dos anos 305-306, com base em critérios de datação internos ao texto, nomeadamente associados à nomenclatura imperial, e argumentou razoavelmente no sentido de contrariar posições dubitativas quanto à sua autenticidade, a qual aceitamos sem reserva, mesmo tendo em conta a inusitada fórmula que abre o texto e a particularidade de fonética sintáctica que se lhe associa. Quanto a este último aspecto, encontra-se perfeitamente adquirida a existência do dobrete ad/at, aspecto que originalmente decorre do ensurdecimento da consoante final da preposição em face de consoante surda (Väänänen 1988 3 , 125). Concomitantemente, também consideramos o texto completo, não carecendo da presunção de uma linha inicial em falta, e que só poderia ter existido na molduragempara uma leitura [In honorem / e]t aucmentum, cf. Rodrigues (1959)(1960) 114), tendo em vista Figueiredo (1888a) e CIL II 5239, ainda que essas propostas tenham sido aferidas (Figueiredo 1888c e p. 1031 do suplemento ao CIL II) -, ou, inclusive, de se considerar truncado o início da primeira linha -cf. Encarnação (1979, 173, n. 1), propondo [B(onum) e]t aucmentum.
doi:10.14195/1647-8657_55_11 fatcat:lscdxifjfvgwtfutl7wxrvtc54