Considerações sobre uma estratégia personalizada para o rastreamento do câncer de mama em pacientes de alto risco

Hélio Sebastião Amâncio de Camargo Júnior
2014 Revista Brasileira de Mastologia  
A estratégia escolhida para abordar o rastreamento em pacientes de alto risco para câncer de mama frequentemente se baseia em dados escassos. Proponho uma reflexão personalizada e adaptada à realidade do nosso meio para estabelecer a estratégia ideal para cada paciente. A estratificação do risco de câncer de mama já mostra alguma dificuldade. Há poucas publicações sobre o ponto de corte das faixas de risco. A conhecida norma da American Cancer Society para rastreamento por ressonância magnética
more » ... ssonância magnética em pacientes de alto risco 1 estratifica o risco em 3 faixas: 20 a 25% ou maior, 15 a 20% ou menos de 15%, risco esse avaliado por meio de uma das várias fórmulas matemáticas existentes, com Gail, Claus, Tyrer-Cuzick, etc. Pela imprecisão do ponto de corte e a aceitação de diferentes fórmulas nota-se certo grau de arbitrariedade. Uma portadora de mutação BRCA será sempre considerada como de alto risco, mas uma paciente com alguns tipos de antecedentes familiares pode ou não ser incluída na faixa de risco, dependendo do critério adotado. O estudo ACRIN 6666 usou critérios semelhantes, especificando as fórmulas de Gail ou Claus para o risco em todo o tempo de vida da paciente (ponto de corte ≥25%) e a fórmula de Gail para o risco nos 5 anos subsequentes (ponto de corte de 2,5 ou 1,7% na presença de mamas extremamente densas), também pontos de corte não baseados em dados sólidos 2 . A combinação entre essa relativa arbitrariedade na estratificação do risco de câncer de mama e as distorções na percepção de risco que as pacientes tendem a ter 3 faz com que a comunicação do risco à paciente seja um motivo grande atenção na consulta sobre estratégia de rastreamento. Falemos agora sobre os diferentes métodos de rastreamento. Mamografia Tem sido habitual recomendar o início do rastreamento mamográfico em mulheres com antecedentes familiares em uma idade dez anos menor do que a idade em que ocorreu o diagnóstico na sua familiar. Surpreendentemente, essa popular recomendação é totalmente empírica e não baseada em dados sólidos, e já foi inclusive criticada 4 . Proponho aqui uma variação da conduta tradicional. Aqui proponho que se realize a mamografia dez anos antes da idade da familiar, mas, caso o exame constate mamas extremamente densas ou heterogeneamente densas, interrompa-se a mamografia até pelo menos os 40 anos, dando-se ênfase a um rastreamento por ultrassonografia ou ressonância magnética. Isso por dois motivos: a mamografia tem menor sensibilidade em mamas densas e a mulher mais jovem é potencialmente mais sensível ao efeito carcinogênico da radiação ionizante (vale lembrar que em mamas mais densas o mamógrafo automaticamente administra uma dose maior de radiação) 4 . Ultrassonografia São vários os trabalhos que têm mostrado boa capacidade de detecção de cânceres relevantes com o rastreamento ultrassonográfico 2,5 . A grande crítica a esse método é que ele aumenta o número de falsos positivos 2 . No entanto, raramente é citado que os falsos positivos gerados pela ultrassonografia são de manejo fácil, pouco invasivo e barato por meio das biópsias percutâneas orientadas pela ultrassonografia, diferente das biópsias orientadas pela mamografia ou res-
doi:10.5327/z201400030007rb fatcat:ws7igkwbwfgavjw2sidbagpzdi