Os usos inadequados e os efeitos adversos de medicamentos na prática clínica

Anthony Wong
2003 Jornal de Pediatria  
As questões abordados neste número por Carvalho et al. levantam uma parte dos problemas e decisões que constantemente afligem não apenas os médicos que trabalham em terapia intensiva, mas também em serviços de emergência e no consultório 1 . O uso de medicamentos contrários e não-condizentes com as recomendações dos órgãos regulatórios, das farmacopéias e das sociedades médicas em número tão elevado, apontado neste trabalho, reflete apenas "a ponta do iceberg" desta situação, e que já se tornou
more » ... uma prática corriqueira e até banalizada. O que é surpreendente é a lista de medicamentos apresentada por estes autores como "não aprovados", que são dois apenas, visto que a dipirona é aprovada no Brasil. Os demais medicamentos não estavam corretos apenas na posologia. Isso difere substancialmente do que se vê em outros centros nas quais um grande número de medicamentos são usados inadequadamente, dentro e fora das UTIs pediátricas, tais como o uso de antibióticos (e.g. fluoroquinolonas), certos antiinflamatórios, drogas vasoativas e cardioativas e antidepressivos, que não estão autorizados para uso em crianças. Pode esta prática ser justificada pelas tentativas, às vezes desesperadas, de salvar uma vida? Existiriam poucos medicamentos disponíveis e eficazes para pacientes pediátricos? Mesmo nos Estados Unidos, aproximadamente 50% a 75% dos remédios usados na clínica pediátrica não foram avaliados adequadamente 2 . A experiência mostra que muitos remédios podem ser usados com segurança em crianças, se por curto espaço de tempo. Porém, nestes casos, seu uso empírico e sem nenhum critério científico deixa o pediatra a mercê de dúvidas e sujeito a críticas. Levantamentos bibliográficos mostram que os incentivos e legislações que promovem ensaios clínicos em crianças auxiliaram o melhor conhecimento da farmacocinética e forneceram importantes informações da dose e da segurança de medicamentos usados em pacientes pediátricos 2 . Em 1997, e novamente em 2002, o Congresso americano estendeu a patente de um medicamento se este tivesse ensaios clínicos pediátricos. Em 1998, o FDA exigia ensaios pediátricos em qualquer medicamento que tivesse potencialmente uso pediátrico. A Academia Americana de Pediatria estabeleceu normas e critérios éticos para ensaios envolvendo crianças 3 . Tais iniciativas não foram ainda adotadas no nosso país. Por outro lado, é necessário enfatizar que o uso indiscriminado de remédios e das associações de fármacos aumenta a morbi-mortalidade devido aos eventos adversos e à toxicidade destes, com um custo elevadíssimo, superior a 3 bilhões de dólares anualmente nos EUA 4 . Segundo um estudo da Harvard, as reações adversas naquele país são muito mais comuns entre pacientes hospitalizados, podendo superar inclusive os acidentes automobilísticos e a violência 5 . A incidência de efeitos adversos por medicamentos na idade pediátrica é de 4,5% a 9,8% 4 . Pode ser até maior do que em adultos, e a maior incidência de eventos adversos e erros de medicação ocorria principalmente em recém-nascidos, especialmente nas terapias intensivas neonatais 6 . No Brasil, não existe levantamento semelhante, mas pode-se suspeitar que o hábito de automedicação, o freqüente uso de associações e o grande número de medicamentos (alopáticos, homeopáticos e fitoterápicos) disponíveis possam causar prejuízos econômicos, sociais e à saúde ainda mais significativos. Veja artigo relacionado na página 397
doi:10.1590/s0021-75572003000500001 pmid:14557834 fatcat:xvaeewlnyzg6fcx3rt3472u3b4