A ficção cética

Isabel Pires
2005 Alea: Estudos Neolatinos  
Quem acompanha o extenso trabalho de Gustavo Bernardo sabe da sua imensa -e nem um pouco cética -paixão pela literatura e pelo estudo do ceticismo filosófico. A ficção cética, seu último ensaio, ao reunir vocação literária -revelada desde os primeiros livros, como o romance infanto-juvenil Pedro pedra, considerado altamente recomendável para jovens pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (1982) -e trabalho árduo -que, por sua vez, encerra o artesanato intelectual próprio ao ensaísta
more » ... a paciência do arqueólogo inerente ao pesquisador -, tem como proposta fundamental justamente permitir o encontro entre ficção e ceticismo, vale dizer, o diálogo entre literatura e filosofia. Alguém já disse que um bom escritor é aquele que conta também com a experiência -insubstituível -da sala de aula, isto é, a vivência do professor. Gustavo Bernardo, "dublê" de professor e escritor, parece confirmar essa tese em seu ensaio, pois não é a voz do professor preocupado com o diálogo e a troca fecunda de idéias que ouvimos na passagem "uma pedagogia cética orienta os alunos a fugir das sentenças categóricas recorrendo a termos suspensivos como 'talvez' -que também funcionam como traços de cautela acadêmica. Essa escolha lingüística instaura uma dúvida interna ao pensamento, promovendo desse modo diálogo igualmente interno ao texto. Se as idéias debatem entre si, adiando o máximo possível a conclusão, o leitor desse tipo de texto se sente parte do diálogo, e não um sujeito intimado a concordar com ou a discordar de determinada opinião"? (: 28-9). Outras vezes, escutamos o timbre do crítico consciente, que constata -em vez de, simplesmente, contornar -as aporias, ou impasses, de seu próprio objeto de estudo: "Alguns consideram hipocrisia dos céticos suspenderem todo o juízo mas se permitirem levar uma vida normal, constituir família, comprar casa e cachorro, ir à igreja. Essa crítica aos céticos é pertinente, porque aponta para uma possível falta de radicalidade na dúvida e na crítica céticas" (: 43). Outras vozes, muitas vozes, também comparecem ao diálogo convocado por Gustavo Bernardo. Do século III, por volta de 220 a 230, chega até nós a voz do médico grego Sexto Empírico, o primeiro sistematizador de que se tem notícia da "bateria cética", ou seja, a "máquina de guerra" do pirronismo, composta por Dez modos e Oito modos, de Enesidemo, e Cinco tropos, de Agripa, que se acham sumariados em sua obra mais importante:
doi:10.1590/s1517-106x2005000200012 fatcat:5tj7qw7imndprf5maiik5myj24