Artigos Originais Dependência, recuperação e o tratamento através da ayahuasca: definições e indefinições Dependency, recuperation and the treatment through ayahuasca: definitions and indefinitions Saúde & Transformação Social

Sau, Transf, Soc
2013 unpublished
RESUMO-Busco, neste artigo, fazer um breve relato histórico sobre o conceito de dependência (e adicção). Esta é uma forma de evidenciar que não há um consenso sobre a definição de um aspecto central para o estudo e a adoção de práticas em relação ao problema do abuso de substâncias psicoativas. Distintas formas de definição da dependência geram formas distintas de tratamento, e não há como pro var que um dos modelos é mais efetivo que os outros. Em seguida, utilizo uma cartilha produzida pelo
more » ... ha produzida pelo Ministério da Saúde em 2004 para elucidar o posicionamento deste órgão governamental sobre esta questão. Por fim, faço um outro relato histórico, desta vez do uso de psi coativos como o LSD, o peiote, a Cannabis e a ayahuasca para tratar a dependência. O que em um primeiro momento pode ser pensado como uma terapia de substituição ou mesmo um contra-senso (como tratar o abuso de uma substância utilizando outra substância psicoativa?), vem demonstrando ser uma rota viável para lidar com este problema. Palavras-chave: Banisteriopsis; Transtornos Relacionados ao Uso de Substâncias; Terapia. ABSTRACT-A brief historical background on the concept of dependency and adiction is built at the beginning of this article. This is a way to put in evidence that there is no consensus on a definition of a central aspect for the study and the adoption of practices related to the abuse of psychoactive substances problem. Distinct definitions of dependency result in distinct ways of treatment, and there is no way to prove that one model is more effective than the others. Then, I use a textbook produced by the Health Ministry in 2004 to elucidate the position of this governmental institution about this problem. Finally, I do another historical overview, on the use of psychoactive substances like LSD, peyote, Cannabis, and ayahuasca for treating dependency. Neither a substitution therapy nor an absurd (how to treat the abuse of a substance using another psychoactive substance?), has been used as an effective way to deal with this problem. 1. DEPENDÊNCIA Berridge 1 indica que a noção de adição e dependência foram "descobertas" no século XIX, ainda que as idéias de "embriaguez crônica" e "habituação às drogas" já fossem conhecidas desde o século anterior. Segundo esta autora, no século XVIII não era feita ainda uma diferenciação entre o desejo e a vontade de consumir uma substância psicoativa. Esta distinção, segundo a autora, é central para a elaboração de um conceito de adição: "considerava-se que o beber fosse alguma coisa sobre a qual o indivíduo tivesse o controle final" (p. 16), ainda que, por volta da metade do século XVIII já havia "uma tendência para ver os bebedores como indivíduos que havia perdido a capacidade de beber moderadamente" (p. 16). Berridge diz que o crédito da "descoberta" da adição, no caso do álcool, deve-se à Thomas Trotter, com o livro "Essay medical, philosophical, and chemical on drunkness", em 1804, onde dizia que a adição era uma doença da mente, tendo que ser tratada por médicos. Nos Estados Unidos, já em 1791, Benjamim Rush (An enquiry into the effects of spiritous liquors upon the human body and their influences upon the happines of society) já dizia que a embriaguez crônica era tanto uma doença quanto um transtorno da vontade. Em 1891 Carl von Bruhl-Cramer diz que a embriaguez resultava de "uma doença do sistema nervoso, que produzia um desejo irresistível pelo álcool" 1 (p. 17), e chamou tal doença de "dipsomania". Em relação às drogas, Edward Levinstein (1878, Morbid craving for morphine) considerava que o
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