Pigmalião digital: a construção simbólica e visual do feminino na revista online CoverDoll

Maria João Faustino
2017 Revista Comunicação e Sociedade  
Resumo Partindo da moldura teórica do ciberfeminismo, e questionando a construção da visualidade no contexto digital e a dimensão de género que a baliza, o presente estudo centra-se na análise dos conteúdos imagéticos e linguísticos publicados na CoverDoll, revista online dedicada às sex dolls. O mito de Pigmalião é proposto como dispositivo hermenêutico na análise da Cover-Doll, já que os mecanismos de simulação de uma subjetividade parecem reproduzir o mesmo fundo simbólico: o feminino
more » ... : o feminino ficcionado surge numa condição de alteridade, como produto do masculino criador. A nossa análise aponta para continuidades simbólicas e convenções estéticas que permanecem apesar das disrupções técnicas. A construção visual do feminino nas produções fotográficas da revista prolonga mecanismos operantes na tradição da pintura descritos por John Berger: o feminino retratado dirige-se a um voyeur masculino, ausente da imagem. A câmara é na CoverDoll sucedânea do espelho enquanto dispositivo de construção do feminino narcísico: pelas múltiplas referências à camara, a pretensa vaidade feminina surge como artifício de ocultação do voyeur masculino. Os conteúdos imagéticos convergem para a erotização e espectacularização do corpo feminino, tratando-o como objeto visual e traduzindo uma visão padronizada de beleza. As narrativas ficcionais articulam estereotipias do feminino: frivolidade, sedução e cuidado. Abstract This study aims to question and problematize the construction of gendered meanings and visual codes in the digital context. Rooted in the theoretical framework of cyberfemism, it analyzes the visual and linguistic content of CoverDoll, a monthly e-zine thematically devoted to sex dolls. The Pygmalion myth is proposed as the symbolic framework of CoverDoll, since the linguistic and pictorial devices that support a simulated subjectivity seem to reproduce its main backdrop: the feminine is constructed as alterity and a product of male desire. The analysis of CoverDoll's portfolio and fictional discourses suggests the persistence of symbolic and aesthetical conventions despite technological ruptures. The operating mechanisms in the tradition of painting described by John Berger seem resiliently translated into the visual construction of the feminine in CoverDoll: the portrayed feminine figure addresses a masculine voyeur which is absent from the picture. The camera replaces the mirror as a symbolic device of the projected female's narcissism, as the multiple references to the camera in the fictional discourses forge the idea of female vanity. The images displayed overall eroticize and objectify the artificial female bodies. The fictional narratives mobilize and intertwine a set of stereotypes that associate femininity with futility, seduction and caring. 232 Pigmalião digital: a construção simbólica e visual do feminino na revista online CoverDoll . Maria João Faustino Introdução. Repensar o corpo genderizado: do ciberfeminismo às sex dolls. Pigmalião revisitado: desejo e artifício na era da técnica O corpo foi, na tradição de pensamento do Ocidente -a despeito das várias construções e derivações epocais, culturais e autorais -simbolizado como instância produtora de erro e equívoco, lugar-matéria dos desejos e apetites menores, reduto da animalidade que um compromisso ético e epistemológico exigiria purgar (Bordo, 1993, p. 2). Do cárcere corpóreo representado no Fédon de Platão, à transitoriedade postulada na matriz cristã, aos múltiplos esforços de supressão do corpo na prossecução do conhecimento, parece, como afirma Bordo, detetar-se um fundo de sentido: o corpo e construído como separado da mente, do espírito, da liberdade (Bordo, 1993, p. 3). Ora, tal dualismo basilar não é neutro nas suas valorações e associações produzidas: assume um carácter genderizado, onde a superioridade do que não é corpo é classicamente conotada com o masculino, ordem cerebral, intelectiva, instância racional. Por contraste, a dimensão somática, carnal, e o seu peso, determinação e concretude, surgem como feminizadas, numa identificação do feminino com o corpo que encontra raízes na tradição ocidental aristotélica (Price & Shildrick, 1999, p. 17). Foi a mesma tradição de pensamento que Donna Haraway, no seu influente A Manifesto for Cyborgs: Science, Technology, and Socialist Feminism in the 1980s (1985), diagnosticou como sendo estruturada em dualismos, antinomias fundamentais que opunham natureza e cultura, corpo e mente, feminino e masculino. Tais antinomias não pressuponham simetria ontológica ou axiológica, pelo contrário; o império do self, masculino, produto supremo do Ocidente, impôs a sua marcha de progresso pela dominação da sua diferença, da sua dissemelhança, da sua alteridade (1985). Para Haraway, a emergência de uma nova ontologia resultante da profusão de alianças entre corpo e artefacto, biologia e tecnologia, alavanca a erosão dos binarismos, a flutuação das identidades, a assunção da sua contingência. Humano e animal, biológico e mecânico, são já territórios móveis, de fronteiras indistintas: "todos somos ciborgues", diz-nos Haraway (1985). As ontologias clássicas estão caducas, o que vota também à caducidade a diferenciação entre homens e mulheres: o ciborgue, escreve Haraway, é criatura híbrida de um mundo pós-género; nele se desenha a superação do estatuto de alteridade classicamente reservado ao feminino (1985). A projeção de futuro que a figura do ciborgue encerra insere-se num movimento mais lato de acolhimento e clamor da técnica e que nela entrevê a reestruturação das identidades convencionadas, hierarquias de género relações e sociais incorporadas. O ciberfeminismo, ou, com rigor, os ciberfeminismos, já que é grande a diversidade interna de correntes, matizes e contributos autorais (Daniels, 2013, p. 102), têm como denominador comum a problematização das relações entre género, práticas feministas e tecnologias digitais (Daniels, 2013, p. 103). As orientações teóricas que, na esteira de Sadie Plant (1997) defendiam o ciberespaço como lugar de dessomatização e potencial fluidez do género, parecem progressivamente suplantadas por propostas mais matizadas, sustentadas em estudos empíricos concernentes às práticas e modalidades de utilização das tecnologias digitais.
doi:10.17231/comsoc.32(2017).2759 fatcat:jga7xb4osjgtbbc3nthfupexaa