Ser e devir da América Latina Notas da perspectiva da diferença

São Poliética, Paulo
2017 unpublished
Sempre um tecido de identidades, sempre o diferente, sempre a vida que se engendra. Walt Whitman Desde que cheguei ao Brasil-já faz mais de sete anos-pen-so muito nos escritores europeus que, obcecados por fantasias de evasão, perseguiram no sul a ilusão de uma vida simples, sem as contradições que dilaceravam as cidades modernas. Os meus anos em Portugal não foram suficientes para contagiar-me o cansaço da cultura e a tristeza da carne, mas sempre fui sensível à utopia de um mundo onde tudo
more » ... mundo onde tudo ainda estivesse por ver, por nomear e por fazer-demorei anos, sim, para compreender que esse mundo é aqui e agora e exige de nós um compromisso que não tem a forma da adesão 1. A América nasceu de um sonho similar 2 , que a imaginação eu-1 De fato, antes de regressar ao sul à procura da liberdade que já não encontrava no norte, procurara a utopia na Europa. É certo que, como assinala Fuentes (2011, p. 202), "se no século XVI América foi a utopia de Europa, no século XIX América converteu a Europa na nossa utopia", e quiçá o século XXI, que não parece admitir já utopia alguma, nos condena com isso a uma errância infinita-obrigando-nos, de fato, a assumir de uma vez por todas a nossa liberdade: podemos escolher o espaço onde conduzimos a nossa exis-tência, mas não podemos escolher o tempo que nos toca viver (a esse apenas podemos dar forma, convertê-lo, quem sabe, num destino). 2 Sonho de espaço, de liberdade e regeneração; isto é, sonho renascentista, além da pri-são do mundo medieval, como assinala O'Gorman.
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