Sobre o Professor Carlos Roberto V. Cirne Lima

Alvaro Valls
2020 Filosofia Unisinos  
No início dos anos 80, o Prof. Valério Rohden, então Chefe do Departamento de Filosofia da UFRGS, viabilizou o retorno ao corpo docente dos cassados da ditadura. Voltaram Ernani Fiori, Ernildo Stein, João Carlos Brum Torres e Carlos Cirne Lima. Na cerimônia de recepção aos anistiados políticos, Cirne Lima falou por eles, contando como os bons departamentos haviam sido dizimados. Fiori comentou depois que, como sempre, Cirne Lima fora generoso, pois "dizimar" era um verbo fraco para o expurgo de
more » ... o para o expurgo de tantos excelentes professores de nossas universidades, cassados nos anos 60 e 70. O próprio Cirne Lima gostava de contar histórias daqueles tempos obscuros, e de como alguns que não haviam sido cassados na primeira leva redigiram uma carta denunciando o erro que era cassar professores sem nenhuma razão justa. Um enviado do governo federal, na Reitoria, foi entrevistar então os signatários, solicitando com maneiras corteses que se retratassem, retirando as assinaturas. Ele, Cirne Lima, se negou, recusando o argumento de que "Revoluções não cometem erros" , e preveniu o entrevistador do perigo que seria solicitar tal coisa dos professores Brito Velho, que viriam a seguir. Resultou que os que se negaram a se desdizer foram cassados. Assim era Cirne Lima, generoso, mas altivo, inteligente, mas amigo. Filho de uma família de dest aque, de um pai que dirigira a Faculdade de Direito (quando o grande Lupicínio Rodrigues ainda era um simples bedel, na portaria...) e que já recuperara uma vez as finanças gaúchas (e só não governou o Estado por causa das vergonhosas manobras da ditadura em favor do Coronel Perachi), est e filho do Dr. Ruy não empobreceu ao ser proibido discricionariamente de toda atividade de ensino em universidades; pelo contrário, est ava preparado (desde os seus tempos de estudos em Innsbruck) para administrar grandes orçamentos, no Rio Grande do Sul, no Brasil ou no mundo. Retornou, pois, ao ensino acadêmico de cabeça erguida, filosoficamente atualizada, e aceitou dar aulas para várias turmas enormes, com cerca de 60 alunos, a quem introduzia na Filosofia. Os cursos da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras haviam sido transferidos para o Campus do Vale, na aridez de uma clareira nos matos do bairro da Agronomia, e transformados em cursos diurnos (numa estratégia que pretendia enfraquecer o poder do pensamento crítico). Mas Cirne Lima lecionando três turmas de Introdução à Filosofia produziu um efeito encantador: os jovens dos anos 80 voltaram, após uma década morta, a buscar apaixonadamente estudar Filosofia. Com Stein, Brum Torres e De Boni, além de outros mais jovens, a UFRGS recuperou até colegas professores gaúchos que tinham previamente preferido a UNICAMP. No início dos anos 80, Valério Rohden liderou a criação da Pós-Graduação em Filosofia (mestrado, depois doutorado) e em poucos anos o Prof. Fiori, aposentado, já podia confidenciar que est e departamento era ainda mais forte do que o de antes de 64. Cirne Lima atuou consistentemente na Pós-Graduação, apresentando o pensamento original de língua alemã, os chamados
doi:10.4013/fsu.2020.212.nf fatcat:v6svckfuofd5vattqacff3ymfu