CLARICE LISPECTOR O MUNDO DOS OUTROS: DADOS PRELIMINARES PARA UM TRABALHO DE CARTOGRAFIA (LEITURA DE A HORA DA ESTRELA)

Gilberto Figueiredo, Martins Doutor, Em Letras
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Sentavam-se no que é de graça: banco de praça pública. E ali acomodados, nada os distinguia do resto do nada. Para a grande glória de Deus. 1 Mas há os que morrem de fome. Aos milhares. Minha lenga-lenga é: que posso fazer por eles? Minha verdade é escrever largamente um adaggio. Poderia sofrer a fome dos outros em silêncio mas uma voz de contralto me faz can-tar: eu canto fosco e negro. 2 Fui, pois, ao Anjo e lhe pedi que me entregasse o livrinho. Ele então me dis-se: Toma-o e devora-o; ele te
more » ... e devora-o; ele te amargará o estômago, mas em tua boca será doce como mel! Tomei o livrinho da mão do Anjo e o devorei: na boca era doce como mel; quando o engoli, porém, meu estômago se tornou amargo. Disseram-me então: É necessário que continues ainda a profetizar contra muitos povos, na-ções, línguas e reis. 3 Na mesma pedra se encontram,/ Conforme o povo traduz,/ Quando se nasce-uma estrela,/ Quando se morre-uma cruz./ Mas quantos que aqui repou-sam/ Hão de emendar-nos assim:/ Ponham-me a cruz no princípio.../ E a luz da estrela no fim! 4 Pois eu estava procurando o tesouro da minha cidade. Uma cidade de ouro e pedra, o Rio de Janeiro, cujos habitantes ao sol eram seiscentos mil mendigos. O tesouro da cidade poderia estar numa das bre-chas do cascalho. Mas qual delas? Aquela cidade estava precisando de um trabalho de cartografia. 5
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