Traço que se rompe e palavra que se dobra. NoTas sobre a poesia e o deseNho em Yves boNNefoY

Osvaldo Filho
unpublished
RESUMO: A imagem poética, ao se interessar por si mesma, arrisca produzir o que invariavelmente mostra ser um simulacro de identidade: a depuração da linguagem a fim de se extrair da palavra comum e de se fazer o veiculo de um sentido transcendente. Este artigo enuncia algumas notas em torno do modo como o texto bonnefidiano oscila entre a Imagem, ilusão de transcendência, e as imagens, efeito de uma heurística verbal particularmente engajada em suas imanências retórico-poéticas. Que o espelho
more » ... cas. Que o espelho de tinta assim composto nunca se verifique de suficiente fulgor, essa é evidência cujos traços principais a aproximação entre poesia e desenho ajuda, aqui, a seguir. PALAVRAS-CHAVE: Bonnefoy. Poesia. Desenho. Imagem. Presença. Dessinant, peignant, écrivant, on contraint l'être, puissance désormais incomprise, à claudiquer de plus belle sur les béquilles du signe. Yves Bonnefoy (1977, p.323). 1. A palavra poética por vezes ruma à própria ruína, nos jogos e facilidades da linguagem. Em Yves Bonnefoy há ao menos essa injunção: "devolver ao mundo o rosto de sua presença". Nele, a poética não ignora as possíveis aporias da efusão e da imagem. Razão porque sua voz lírica se inscreve em certo descontínuo, no espaço desocupado das lógicas e dos mitos. Trata-se de um lirismo à procura de élan poético; de fôlego por vezes entrecortado, em apneia nas palavras e nas figuras, por obsessão da passagem, do influxo. Sua voz é dos começos, ainda que empenhada em permanecer no tempo.
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