A herança da escrita: elaborações da perda em Jorge Luis Borges [thesis]

Patrícia de Oliveira Leme
Agradecimentos À minha família, pelo acolhimento mesmo à distância, pelo amor, pela força, pelo apoio, pela compreensão, por tudo o que até hoje pude realizar: lar para onde o retorno é possível e de onde (re)partir também é. À professora Cleusa Rios P. Passos, orientadora desta pesquisa e, em tantos aspectos, essencial ao seu curso: pelo acolhimento, pelos interesses partilhados, pelas leituras rigorosas, pelo respeito pela coisa escrita (por Borges ou por mim), por muitas vezes ouvir antes de
more » ... ezes ouvir antes de mim o meu desejo; sobretudo, pela garra de un pájaro. À professora Ana Vicentini, pelo trágico que aflora e por anos de travessia; à professora Nina Leite, pelo ponto cego e pelo estranho objeto que insiste; à professora Flavia Trocoli, antes pela voz de Proust, agora pelo véu. Ao professor Wilson Alves-Bezerra, pelo objeto-livro; ao professor Roberto Zular, pela máquina do mundo e su atareado rumor; à professora Ana C. Olmos, pelo ensaio no ensaio. À professora Elizabeth Cancelli, pelos questionamentos, chistes e conselhos. À professora Yudith Rosenbaum e aos colegas do Grupo Crítica Literária e Psicanálise, pelos encontros e partilhas. Ao Centro Outrarte, pela trilha moebiana. A Amanda Luzia da Silva, pela Chacarita de bicicleta, pelo gran cronopio e por Tamara Kamenszain; a Laura Chagas, pela poesia e pela imagem; a Paula Carvalho, por mil e um(a) viajantes; a Daniel "Nerso" Ayub, pelas leituras de tarô que quase derrubaram um apartamento; a Carol Zuppo, pelas conversas, pela presença e pela(s) mudança(s); a Marina Sestito, pela vizinhança imediata, literal e figurada; a Lucas Caldeira, por uma São Paulo de "bice", pelo elefante de Drummond e pela Mayara Vincenzi; a Tomaz Amorim, pela presença constante e querida, pelo Odradek e pela cabaninha no fim do mundo. Ao Grupo Tai Chi Chuan na USP, por um novo eixo; ao Grupo Nzinga de Capoeira Angola, pelo corpo em jogo, pela tradição e pela resistência, por um novo ponto de vista na pequena e na grande roda; às crianças da Ocupação Esperança, pela brincadeira e pela luta, pela energia moleca, pela alegria subversiva. A Sara Hassam, pela escuta. Ao CNPq, pela concessão de bolsa ao projeto nº167536/2014-1, que resultou nesta tese. -Vai, meu filho. É a luz dos teus olhos, que só Deus teve poder para te dar. Vai. Fim do ano, a gente puder, faz a viagem também. Um dia todos se encontram... (João Guimarães Rosa) Resumo LEME, Patrícia de Oliveira. A herança da escrita: elaborações da perda em Jorge Luis Borges. Tese (Doutorado). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2019. O presente trabalho investiga a noção de perda a partir das tensões constitutivas da escrita de Jorge Luis Borges. Para tal, seu foco recai sobre uma posição enunciativa constante na obra borgeana: em muitas de suas narrativas, por exemplo, a experiência-limite vivenciada em um tempo passado é trazida ao tempo da enunciação, mas, paradoxalmente, tal gesto só virá a reafirmar a inacessibilidade do fato narrado àquele que enuncia. Esse circuito entre perda e escrita, constitutivo dos contos e das demais formas literárias eleitas por Borges, é desdobrado ao longo desta leitura por meio de dois segmentos: o primeiro se dá no espaço literário aberto por "El aleph", no qual o narrador revela ser o escritor da narrativa em processo; o segundo emerge quando se postula a cegueira borgeana como uma metáfora da perda em sua obra, elemento que produz importantes efeitos de leitura. Nessa perspectiva, Édipo em Colono, última tragédia de Sófocles, é tomada como referência a esta investigação: tal como Édipo, Borges está também inscrito em um destino inelutável, relação que, já traçada textualmente pelo próprio autor, aprofunda esta leitura. De forma analógica, esse percurso encontra um lugar teórico relevante para a sua investigação no campo psicanalítico, área do saber que, ao iluminar a posição final do herói trágico, permite uma elaboração consistente quanto ao estatuto da perda na escrita borgeana. Palavras-chave: Abstract LEME, Patrícia de Oliveira. The heritage of writing: elaborations of loss in Jorge Luis Borges. Tese (Doutorado). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2019. This work investigates the notion of loss as it appears in the constitutive tensions of Jorge Luis Borges' writing. To that end, it focuses on a recurring enunciative position in borgesian oeuvre: in many of his narratives, for example, the past limit-experience is brought to the present time of the enunciation, but paradoxally enought, such a gesture tends only to reassure the inaccessibility of the narrated fact in relation to who enunciates it. This circuit between loss and writing, as it is constitutive of short stories and other literary genres chosen by Borges, is unfolded in this reading through two guiding threads: the first one takes place in the literary space opened with "El aleph", in which the narrator reveals himself as the writer of the narrative in progress; the second emerges when the author's blindness is proposed as a metaphor of loss in his oeuvre, producing reading effects to be taken into account. In this perspective, Oedipus at Colonus, Sophocles' last tragedy, was made a paradigm in this investigation: as Oedipus, Borges also faces an inescapable fate, and once textually established by the author himself, the relation deepens the following reading. In an analogical way, this interpretation path finds in psychoanalytic theory a relevant place for its development, field of knowledge that, by illuminating the tragic hero's final position, enables a consistent elaboration about the loss in borgesian writing.
doi:10.11606/t.8.2020.tde-05022020-181927 fatcat:rlfasmkce5d6lhjgx6o6pbov6i