A morte, o sofrimento e a doença – um luto diferente

Tânia Dias, Médica Interna de Medicina Geral e Familiar, Nunes de Sousa, Assistente Graduado Sénior de Medicina Geral e Familiar
2014 Revista Portuguesa de Clínica Geral  
INTRODUÇÃO A definição da WONCA 1 para a disciplina de medicina geral e familiar (MGF) e as competências do médico de família (MF) estabelece os princípios pelos quais se deve reger a prática destes profissionais. O MF deve desenvolver uma abordagem centrada na pessoa, orientada para o indivíduo, a sua família e a sua comunidade, uma vez que a MGF lida com as pessoas e os seus problemas no contexto das suas circunstâncias de vida e não como patologias ou «casos» impessoais. Tem a competência de
more » ... gerir, simultaneamente, os problemas de saúde tanto agudos como crónicos, lidando com estes quer na dimensão física e psicológica quer na dimensão social, cultural e existencial. Deve reconhecer todas estas dimensões simultanea-A morte, o sofrimento e a doença -um luto diferente RESUMO Introdução: São competências do Médico de Família (MF) a gestão dos problemas de saúde em todas as suas dimensões e a utilização eficiente dos recursos de saúde num papel de provedoria do doente. Descrição do Caso: Homem de 51 anos, casado, pai de 3 filhos vivos. Os antecedentes patológicos iniciaram-se em 2008, com uma perturbação depressiva reativa à morte de um filho. Em 2011 inicia «convulsões», atribuindo-se-lhe o diagnóstico, em neurologia, de epilepsia, tendo sido medicado com doses crescentes de anticonvulsivantes apesar de estudo etiológico inconclusivo. Em agosto de 2012, após intoxicação medicamentosa voluntária (referindo «...eu tenho de ir para a beira do meni-no...»), é referenciado à consulta de psiquiatria que nunca se concretizou. Em março de 2013, na consulta do MF, dada a persistência da sintomatologia, considera-se que poderá existir um quadro de somatização/conversão, sendo o doente referenciado à consulta de psiquiatria. É observado em abril de 2013, medicado com sertralina e clonazepam, com resolução parcial das «crises». Comentário: Este caso salienta a importância da valorização das queixas no contexto biopsicossocial do doente. A perda de um membro da família está associada a uma maior vulnerabilidade a distúrbios psiquiátricos, nomeadamente comportamentos suicidas. Ressalta o papel do MF como gestor dos recursos de saúde e orientador do paciente. Numa era de subespecialização, é função do Médico de Família oferecer ao doente uma abordagem holística, valorizando tanto o seu sofrimento como a sua doença. Palavras-chave (DeCS): Pesar; Transtorno Conversivo; Saúde Holística.
doi:10.32385/rpmgf.v30i2.11284 fatcat:kued2gjzojeirpjhvui6kkh2x4