Territorialidades de insegurança e estratégias biopolíticas dos povos Guarani e Kaiowá na fronteira do Brasil com o Paraguai

Marcos Mondardo
2017 L'Espace Politique  
Refêrencia eletrónica Marcos Mondardo, « Territorialidades de insegurança e estratégias biopolíticas dos povos Guarani e Kaiowá na fronteira do Brasil com o Paraguai », L'Espace Politique [En ligne], 31 | 2017-1, mis en ligne le 18 avril 2017, consulté le 03 mai 2019. Este documento foi criado de forma automática no dia 3 Maio 2019. Les contenus de L'Espace politique sont mis à disposition selon les termes de la Licence Creative Commons Attribution -Pas d'Utilisation Commerciale -Pas de
more » ... ale -Pas de Modification 3.0 France. "gaúchos" 2 , no sentido da crescente multi/transterritorialidade que envolve, hoje, a luta pelos territórios tradicionalmente ocupados 3 . 4 Nas últimas décadas o estado do Mato Grosso do Sul se tornou um caso paradigmático, pois seu espaço se constituiu num laboratório de ações e discursos favoráveis e contrários em torno da demarcação das terras indígenas. Esta pesquisa, assim, é um desdobramento de outros trabalhos (MONDARDO, 2012 e 2013a), com proposições retrabalhadas pelo diálogo com os filósofos Michel Foucault e Giorgio Agamben, e pela inspiradora perspectiva teórica e metodológica dos trabalhos do geógrafo Rogério Haesbaert (2014a e 2015). Fronteiras, insegurança e biopolítica em tempos de Estado de Exceção 5 De forma ambivalente, os limites e as fronteiras parecem estar, de certa maneira, mais porosos, fluídos e abertos. Estes sofrem ações de abertura e fechamento, seja por cercas e muros erguidos ou pelo uso de tecnologias de vigilância. Se de um lado, as fronteiras nunca foram tão abertas à circulação de mercadorias, de turistas, de informações, de dinheiro, por outro ocorre a vigilância e a abertura seletiva com o controle de certas pessoas, objetos e mercadorias. Vivemos um tempo da indistinção do dentro e fora, do fixo e do móvel, em que as fronteiras, por essa lógica da ambiguidade, nunca estiveram, ao mesmo tempo, tão flexíveis e enrijecidas. 6 Nesse processo, a fronteira como componente (ou dispositivo) estratégico da soberania dos Estados (POLANYI, 2000) está sendo acionada na regulamentação para, de um lado, dar fluidez às mercadorias, e de outro, criar um controle da mobilidade humana na sociedade de "segurança" e da "biopolítica" (FOUCAULT, 2008a) em um tempo da difusão do "controle" (DELEUZE, 1992) . De forma ambígua, proliferam nesse cenário muitos tipos de riscos e "insegurança", passando a vigorar o "descontrole de territórios" (HAESBAERT, 2008) . Parece até que nas fronteiras, como componente da constituição de territórios, perdemos o "poder" sobre a vida, tornando a morte banalizada, em tempos de "vida nua" (AGAMBEN, 2002). 7 Por isso a fronteira, hoje, é um espaço emblemático dos dispositivos de controle da população. Foucault (2008) afirma, embora em outro nível de análise, que o controle da mobilidade da população envolve a multiplicidade de sujeitos que não apenas a compõem, mas também interfere e pode constituir uma visão particular ao fenômeno. Nessa direção, podemos considerar que existe uma associação da ideia de população de Foucault à de vida nua de Giorgio Agamben (2004). 8 No entanto, como considera Haesbaert (2012), essa condição de existência extrema do homem, seja enquanto entidade natural e/ou "animalizado", como na visão de Foucault, uma mera visão biológica enquanto espécie humana: O que existe, de fato, são situações, às vezes bastante circunstanciais, em que grupos humanos são percebidos praticamente apenas em sua capacidade de reprodução física e que, nessa condição (...) simplesmente "ocupam espaços", circulam e transportam (n)o espaço. Passam a ser visto, portanto, antes de mais nada, como um fenômeno, literalmente, "de massa" -outro termo também utilizado por Foucault para caracterizar a população (HAESBAERT, 2012, p. 80). 9 Agamben (2004) reconhece nessas mudanças um regime de "Estado de exceção" erigido por leis de exceção que, ligadas ao poder soberano, tornam-se, hoje, a regra, pois,
doi:10.4000/espacepolitique.4212 fatcat:pekkle6pobd7newp7jdqkkvj2e