Éticas Esteticamente Fundadas e a Filosofia de Nietzsche

Claus Zittel
2019 Revista de Filosofia Moderna e Contemporânea  
De fabulações sobre a "unidade", a "alma", a "pessoa", [disso] nós nos proibimos por ora (Anotação póstuma 1885, KSA 11, 37[4]) O confesso nietzscheano Michel Foucault formulou de modo pregnante, em uma de suas entrevistas tardias, o seguinte: "Do pensamento de que o si-próprio [Selbst] não nos é dado, uma consequência prática, a meu ver, pode ser extraída: nós temos que nos justificar [begründen], nos constituir [herstellen], nos organizar [anordnen]". 3 Foucault não estava só nessa exigência
more » ... só nessa exigência de um estético dar-se-a-si-mesmo-uma-forma [einer ästhetischen Selbstgestaltung]: com direto apelo a Nietzsche, foram apresentadas desde a década de 70, em diversos âmbitos, concepções para uma ética do indivíduo sob o título de uma "filosofia da arte de viver [Philosophie der Lebenskunst]", de uma "estética da existência", de uma ética do "dar-se-a-si-mesmo-umaforma" (Foucault 4 , Nehamas, Ma-cIntyre, Gerhardt, Schmid, Nuss-1 Agradeço a Bettina Hartmann, Martin Saar e Werner Stegmaier pelas críticas a uma primeira versão do meu texto. [Tradução para o português realizada por André Luis Muniz Garcia (Professor do Departamento de Filosofia da UnB).] 2 Professor da Universidade de Stuttgart, Alemanha. Este texto foi originalmente publicado em: Nietzsche-Studien vol. 32, 2003, pp. 103-123 [Nota do tradutor]. 3 FOUCAULT, Michel. Sex als Moral. Gespräch mit Hubert Dreyfus und Paul Rabinow. in: FOUCAULT, Michel. Von der Freundschaft. Frankfurt am Main: 1984, pp. 69-93. 4 Cf. FOUCAULT, Michel. Der Geburt der Lüste. Frankfurt am Main: 1990, p. 18. Wolfgang Detel chega, no entanto, ao resultado, em seu Macht, Moral, Wissen: Foucault und die klassische Antike. Frankfurt am Main: 1998, passim, de que Foucault subestima o significado da dimensão estética para uma boa conduta da vida (ver p. 78 e 275). Pierre Hadot, referindo-se a esse estudo sobre a ética antiga em Foucault, dá, em resposta, um passo adiante e reconhece na interpretação esteticizante de Foucault da ética antiga um moderno mal-entendido. Contrariamente às intenções de Foucault, a ética estoica não está centrada [na figura de um] si-próprio [Selbst], nem há nela liberdade de escolha pessoal, algo sugerido por Foucault, entre diferenciados modos de descrição de si próprio [verschiedenen Selbstbeschreibungen] como fundamento de um deliberado dar-se-a-si-mesmo-uma-forma [willentlichen Selbstgestalgungen]. "Na realidade, a escolha pessoal encontra-se no contrário, na adesão a uma forma de vida definida, seja ao estoicismo ou ao epicurismo, uma que pareça adequada à razão". (HADOT, Pierre. Überlegungen zum Begriff der "Selbststruktur". in: EWALD, François, WALDENFELS, Bernhard (org.): Spiele der Wahrheit. Michel Foucaults Denken. Frankfurt am Main: 1991, pp. 219-228, aqui p. 225. Mesmo se a reconstrução de Foucault da forma de vida artística for historicamente falsa, ela poderia ser sistematicamente sustentável. Isso será provado a seguir.
doi:10.26512/rfmc.v7i1.24215 fatcat:ave4poynprc2fb2aanztt4op5q