Limites da escuta: epistemologias do sonoro na música concreta, na ecologia acústica e nos estudos do som [thesis]

Davi Donato Amorim de Araujo
The presente research amounts to a theoretical inquirie localized in the interseccion between the fields of music, sound arts, and sound studies, which intends to discuss the limits of listening parting from theoretical formulationsby a select group of authors. Here I discuss different positions on regard to listening and sound, with an emphasis on matters of epistemology, aesthetics and politics, brought by in different contexts. The first of these contexts is concrete music at the Paris GRM,
more » ... at the Paris GRM, between the decades of 1950 and 1960, drawing from the work of Pierre Schaeffer, which became a paradigm for the field of electroacoustic music. The second chapter delas with the worl of Michel Chion, following from the 1980s, which, until today, is a fundamental work for the thought in the audiovisual arts, in a rather acritical way. Another context, discussed in the third chapter, is the study of the soundscape, developed at the Simon Fraser University, through the 1970s, and which became a key concept for the field of sound studies, passing through several revisions. I'll discuss following from Murray Schafer's texts, but also from the great amount of critical work that has been done in the last decades. Finaly, I'll bring to the discussion the contemporary context of the debate of sound theories, quite rich, that happens in the international academic context, connected to sound art and sound studies. This contemporary context is presented here with four authors of prominence: Christoph Cox, Marie Thompson, Steve Goodman e Rodolfo Caesar. I hope, with this discussion, to contribute with the critical debate in this hybrid field of Sonologia in Brazil. A Fernando Iazzetta, pela orientação, pelo apoio, paciência, amizade, e por ter me acolhido para o doutorado neste local onde o campo da Sonologia se desenvolve de forma tão vigorosa e diversa. Ao NuSom -Núcleo de Pesquisas em Sonologia. Aos amigos(as) da comissão do Sonologia 2019, Valéria, Igor, Yonara, Henrique, Marina, Migue e Flora, pela experiência incrível que tem sido organizar este evento com vocês. Às amigas da Sonora, A Rodolfo Caesar, Ale Fenerich, Silvio Ferraz e Denise Garcia pela leitura e pelas questões colocadas nas bancas. Aos professores das disciplinas que cursei: Fernando Iazzetta, Silvio Ferraz, Heloisa Valente, mas em especial, aos pós-doc, cujas disciplinas tive a sorte de poder cursar, Lilian Campesato e Rui Chaves. À CAPES pela bolsa concedida. A Rodolfo Caesar por ter me incentivado tanto neste tempo todo desde o mestrado, por ter me instigado com seus comentários, e por ter me dado força na decisão de vir para a USP. À Carole Gubernikoff (dentre vários outros motivos que eu teria para agradecer) por ter, por diversas vezes ao longo dos anos, insistido que eu devia vir para a USP. À Vânia Dantas Leite, in memoriam, por ter, anos atrás, me apresentado à música eletroacústica e mais especificamente ao Traité de Pierre Schaeffer. A todos os amigos e amigas incríveis com quem convivi nestes quatro anos. Sérgio, Valéria, , e todos os outros dos quais me esqueci. Ao Zé e sua esposa Júlia que me acolheram em sua casa, recém-chegado a São Paulo. Aos amigos do meu (ex-)grupo de estudo no Rio, Rafael Sarpa e Sara Cohen, por manterem nossas conversas vivas. A minha família, minha mãe, Tiago, Mateus e Suellen, por todo o apoio de sempre, a paciência e confiança. 5 Estudos do som 113 5.1 O fluxo sonoro 115 5.2 A crítica a "auralidade branca" 122 5.3 A ontologia da vibração 128 5.4 A espessura do som 134 Considerações Finais 142 Referências Bibliográficas 144 APÊNDICE 1 -Noções de "representação" na musicologia 151 7 t 1 Introdução Ao longo das últimas duas ou três décadas um interesse renovado pelo som emergiu nas artes e nas humanidades para além dos estudos voltados para a música. Essa atenção ao som ocorre simultaneamente em diversos campos como antropologia, história, estudos de mídia e tecnologia, donde surgem, nos anos 2000, termos como cultura auditiva (auditory culture) ou estudos do som (sound studies) para designar o novo campo ou disciplina. Acompanhando este movimento de definição do campo tivemos um aumento exponencial da bibliografia publicada (especialmente em língua inglesa), o surgimento de eventos acadêmicos especializados, blogs dedicados e mais recentemente, periódicos exclusivos, que oferecem uma oportunidade de se solucionar parte da dificuldade apontada por Michele 8 Hilmes na formação do campo dos estudos do som: a dificuldade de comunicação entre seus diferentes âmbitos (Hilmes, 2005: p. 252). O início do Séc. XXI costuma ser tratado como um ponto de virada para a formação dos estudos do som (Hilmes, 2005; Grimshaw-Aagaard, 2018), em especial por conta da publicação de trabalhos, hoje já clássicos, de Jonathan Sterne (2003) e Emily Thompson (2002). Estes dois trabalhos, concordando com Hilmes (idem), tem o enorme mérito de se apresentar de maneira trans-disciplinar, ao não localizar a discussão sobre escuta em um campo específico, transitando por diferentes contextos. Há de se notar também que, desde então, houve um aumento exponencial das publicações na área, o que talvez corrobore esta versão de haver um ponto de inflexão aí. A definição deste campo, que proporcionaria dizer onde e quando começa, por exemplo, é extremamente difícil. Hilmes, ao traçar um breve hisórico de formação do campo (2005), ignora -talvez deliberadamente, talvez não -, toda uma tradição de estudo da escuta e do som na música: autores como Alan Merriam, Pierre Schaffer, John Cage ou Murray Schafer não são mencionados. Enquanto os autores de cinema e rádio -área de atuação da autora -, como Rick Altman, Michel Chion, e Rudolph Arnheim, são lembrados como precursores. Peter Széndy, em um texto recente sobre a "virada auditiva" (2016), começa com uma clara provocação a Jonathan Sterne, que segue com uma demonstração de que a narrativa dos "sound studies" promove um apagamento, ou demonstra equívocos na leitura, de autores da filosofia que trabalharam noções de auralidade há muitas décadas (o autor, evidentemente, demonstra também um incômodo por conta dele próprio ter publicado um livro sobre escuta antes de Sterne, e nem por isso costuma ser lembrado). Cito estes dois textos para mostrar que a definição deste campo ainda se encontra em plena disputa. No Brasil, com o campo da Sonologia e sua aproximação aos estudos do som, como entendido internacionalmente, não é diferente. (ver Caesar, 2017) Começo com esta breve discussão sobre a delimitação da área no intuito de justificar meu recorte. Considero que este trabalho se situa na intersecção entre música, artes sonoras Esta pesquisa começou como uma investigação sobre a ideia de "representação" na música e nas artes sonora e, ao longo do processo, acabei abrindo meu foco, chegando a este estudo dos "limites da escuta" em diferentes propostas teóricas neste campo de intesecção que venho apresentando. Com esta mudança um pequeno texto que havia feito, voltado para a questão da representação na musicologia, ficou um pouco deslocado, mas não o suficiente para justificar sua exclusão, pois acredito que em alguma medida ainda dialoga com o resto da tese. Por isso incluí-o aqui como um apêndice, ao fim do texto.
doi:10.11606/t.27.2019.tde-26072019-092642 fatcat:gbz6fappxvdvjaay6akwmvx2wu