A ascensão do dinheiro aos céus: Os limites estruturais da valorização do capital, o capitalismo de cassino e a crise financeira global

Robert Kurz
2019 Geografares  
Capital real e capital portador de juros 2 A relação contraditória entre trabalho e dinheiro é uma das muitas estruturas naturalizadas 3 do mundo moderno. O trabalho, como dispêndio abstrato de energia humana no processo da racionalidade empresarial, e o dinheiro, como forma fenomênica do "valor" econômico assim produzido (ou seja, uma fantasmagoria fetichista da consciência social objetivada), são as duas faces da mesma moeda. O dinheiro representa, ou "é", nada mais que "trabalho morto"
more » ... abalho morto" tornado realmente abstrato na forma de uma coisa, no fim em si mesmo capitalista, que consiste em uma acumulação sempre acrescida de tal meio fetichista. A humana "mediação do metabolismo entre homem e natureza" (Marx, 1985, tomo I, livro I) 4 tornou-se um abstrato, e em si, dispêndio insensato de força de trabalho, justamente porque o dinheiro se autonomizou do agente humano, na forma fetichista potenciada do capital: desse modo, não é a necessidade humana que guia o dispêndio de energia, mas, ao contrário, é a forma "morta" dessa energia, autonomizada como coisa, que subordina a si a satisfação das necessidades humanas. A relação com a natureza, tal como as relações sociais, tornaram-se meros processos de passagem para a "valorização do dinheiro". Porém, este processo de valorização, em que o meio fetichista se tornou um fim em si mesmo, não se desenvolve sem atritos. Como o trabalho e o dinheiro constituem fases diferentes do desenvolvimento da valorização, estes dois momentos, como fim em si mesmo, também podem se separar em situações de crise, deixando assim de coincidirem. Tal falta de coincidência manifesta-se como uma desvinculação entre o dinheiro e a substância abstrata do trabalho: a multiplicação do dinheiro ocorre mais rapidamente que a acumulação de "trabalho morto" tornado abstrato, destacando-se assim da sua própria base. Mas, como os dois fenômenos, do trabalho e do dinheiro, se formaram em um processo histórico cego, nas costas dos sujeitos humanos, o seu nexo intrínseco escapa à consciência, tanto no "bom senso" comum, como no pensamento científico. Nas diversas ideologias, assim como na concepção do processo econômico, trabalho e dinheiro podem então, surgir como opostos um ao outro. A sociedade moderna é considerada, em geral, uma "sociedade do trabalho" ou uma "sociedade do lucro" 5 , e, é incontestável que trabalho e receita monetária são, afinal de As notas deste artigo poderão ser encontradas a partir da página 99.
doi:10.7147/geo28.24388 fatcat:nlfxporl5jggzic7pscsfklxxq