Trabalho e dominação no capitalismo monopolista: um esboço de sistematização

Gisela Taschner Goldenstein
1986 RAE: Revista de Administração de Empresas  
o que se convencionou chamar de capitalismo monopolista pode ser percebido (com mais clareza nos países desenvolvidos) através de uma série de características decorrentes de mudanças que se deram no interior do modo de produção capitalista, grosso modo, a partir de fins do século passado. Entre elas destacamos as seguintes: • o desenvolvimento das empresas gigantes e a mudança da base de acumulação; • a emergência de novas relações entre a propriedade e o controle do capital, bem como de novas
more » ... bem como de novas técnicas de gerência; • o desenvolvimento da indústria cultural e de sua xifópaga, a publicidade (que se torna peça fundamental no processo de realização do valor e da mais-valia), bem como do crédito e do capital financeiro; • aextensão da educação formal tendencialmente a toda a sociedade; • a incorporação sistemática da ciência pelo processo produtivo; • a liberação do capital de suas limitações técnicas e financeiras ao mesmo tempo em que sua realização se torna mais problemática; • a internacionalização cada vez maior do modo de produção. Rev. Adm. Emp. Todas estas características, entre outras não mencionadas, remetem de modo mais ou menos direto a um processo mais amplo de racionalização da dominação capitalista. De fato, é na etapa monopolista que a racionalidade capitalista parece atingir historicamente seu desenvolvimento máximo. Trata-se de um desenvolvimento em um duplo sentido; onde já existia previamente, esta racionalidade aprofunda-se a níveis talvez sequer imaginados no passado e desenvolve mecanismos mais acabados para se realizar. De outro lado, ela se expande para além do âmbito da chamada produção material, subordinando novas dimensões da sociedade, e penetrando-a por todos os seus poros .. Trata-se de um processo através do qual se vai configurando o que Adorno denominou socialização total, ou seja: "As malhas do todo vão-se entrelaçando, cada vez mais estreítamente.segundo o modelodo ato de troca. A consciência individual tem um âmbito cada vez mais reduzido, cada vez mais profundamente preformado, e a possibilidade da diferença vai ficando limitada apriori até converter-se em mero matiz na uniformidade da oferta. Ao mesmo tempo, a aparência de liberdade faz com que a reflexão sobre a própria escravidão seja muito mais difícil do que o era quando o espírito se encontrava em contradição com a aberta opressão." 1 Na sociedade plenamente socializada a que se refere Adorno, "as diversas peças de sua estrutura se ajustam em todos os seus níveis, num todo que se impõe como o real, e é um 'real ideológico', porque veda por todos os lados o acesso àquilo que concretamente o articula, enquanto tal: as relações de produção."2 É com este processo que estamos preocupados, pois, através da racionalização, a dominação capitalista se fortalece, ao mesmo tempo que se torna menos visível. Adorno e outros frankfurtianos, bem como Lukács, trataram do desenvolvimento da racionalidade capitalista principalmente no segundo sentido em que o mencionamos (expansão). Braverman incorpora em parte estas preocupações, no seu livro Trabalho e capital monopolista.s o que aparece tanto na feliz interpretação que dá à expressão mercado universal, como quando mostra a difusão do sistema de trabalho fabril para os grandes estabelecimentos não-industriais (comércio, serviços) ou quando analisa as bases em que se assenta o sempre precário processo de habituação do trabalhador. Mas retém como núcleo de seu estudo a forma pela qual se dá a dominação capitalista sobre o trabalho no processo de trabalho, ou seja, preocupa-se com o aprofundamento desta dominação na etapa monopolista (através da racionalização), no loeus em que ela existiu desde o início do desenvolvimento deste modo de produção: a empresa. É para este ângulo (aprofundamento) que se voltam nossas reflexões neste ensaio. Como dissemos, o aprofundamento e a expansão da racionalidade capitalista são dois momentos interligados de um mesmo processo de dominação. A expansão da racionalidade capitalista para todas as dimensões da sociedade reforça e complementa a dominação exercida sobre o trabalhador no seu universo de trabalho -o mercado universal a que se refere Braverman envolve também a chamada produção não-material que inclui a ideologia, o lazer, o "cultural" -destruindo as poucas brechas exis-Rio de Janeiro 26(4): 5-17 out.Zdez, 1986
doi:10.1590/s0034-75901986000400001 fatcat:qvxobiipgzaxfi4t6exkeaa36i