Coremática insular: uma teoria para a modelização gráfica de ilhas e arquipélagos. O exemplo da ilha Montão de Trigo (SP) [thesis]

Matheus Sartori Menegatto
Tudo aquilo que fazemos e que adquire correspondência concreta no mundo humano, permeado de seus significados, é uma obra, seja um livro, uma casa ou uma história. Com efeito, toda obra é feita pelos homens e para os homens, um coletivo, e nunca por um único homem e para um único homem, individualmente. Isso porque não há legado nem sentido social em algo que não se compartilha. Inclusive um livro de memórias; uma só pessoa pode escrevê-lo, mas as memórias, mesmo que suas, são construídas na
more » ... o construídas na companhia dos outros, segundo aquilo que lhe fizeram, segundo o que ela lhes fez. Até no caso dos eremitas, muitos deles privando-se da companhia de outrem por dias, meses ou anos, sua obra é mais que sua vida, algo individual; é seu exemplo de vida, algo coletivo. Assim, tomemos este trabalho por uma obra. Que seja singela, ela não constitui uma simples derivação de meu esforço. É, antes, feita para e pelos outros homens, que me formaram desde o nascimento até hoje, em todos os sentidos, em todas as dimensões. É com esta percepção que agradeço imensamente por tudo. A forma e o conteúdo deste trabalho, devo à minha orientadora, Profa. Dra. Fernanda Padovesi Fonseca. A capacidade de discriminar o essencial do acessório, aos Profs. Drs. Sueli Angelo Furlan e Hervé Théry, bem como aos orientandos da Profa. Fernanda. A oportunidade de estudar, à Universidade de São Paulo (USP) e a todos os cidadãos que a custeiam mediante a nobreza e a honestidade de seu trabalho. Os subsídios para os mapas e para frequentar as disciplinas do mestrado, à Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano S.A. (Emplasa). O conhecimento do objeto de estudo, aos moradores do Montão. A consciência, aos meus pais Adriana e João, ao meu irmão Leonardo, ao Douglas, ao Guilherme, às minhas avós Maria, Romilda e Nazareth, aos meus padrinhos, aos meus tios e primos e aos demais amigos e familiares. A vida, a Deus. 6 Enlurados num bloco de pedra, tudo quanto para nós é sensação de todos os instantes, neles é saudade e desejo. Cessam os ouvidos de ouvir a música da terra, rumorejo de arvoredo, vozes amigas, barulho de rua, as mil e uma notas duma polifonia que nós sabemos que o é, e encantadora, unicamente quando a segregação prolongada nos ensina a lhe conhecer o valor. Cessam os olhos de rever a imagem que desde a meninice lhe são habituais. Para os ouvidos, só há ali, dia e noite, ano e ano, o marulho das ondas a chicotadas no enrocamento da torre; e, para a vista, a eterna massa que ondula, ora torva, ora azul. Variantes únicas, as velas que passam de largo, donairosas como garças, ou os transatlânticos penachados de fumo. Figura a vida de um homem arrancado à querência e assim posto, qual triste galé, dentro duma torre de pedra, grudada como craca a um ilhéu. Terá poesia de longe; de perto, é alucinante. Monteiro Lobato. Os faroleiros. 7 Coremática Insular: Uma teoria para a modelização gráfica de ilhas e arquipélagos; o exemplo da ilha Montão de Trigo (SP) Resumo O objetivo principal deste trabalho é demonstrar a especificidade do universo insular. Para tal, os conceitos de insularidade, maritimidade, litoralismo, ilheidade e condição arquipelágica foram elencados de modo a abarcar fatores comuns no âmbito da miríade de possibilidades que as ilhas são capazes de ensejar. O intento central foi, assim, explorar esses conceitos por intermédio de representações gráficas capazes de transcender a simples analogia com a realidade, típica dos mapas. Trata-se, pois, do método da Coremática, desenvolvido pelo geógrafo francês Roger Brunet na busca de uma argumentação feita não somente pelas palavras, mas pelas imagens. A princípio, com as possibilidades de representação geométrica existentes, é possível compor uma série de figuras estruturantes ou basilares que, combinada ou individualmente, são capazes de expressar as dinâmicas fundamentais de determinado espaço geográfico. Com efeito, lançou-se mão do método coremático para demonstrar a especificidade da forma insular, tendo, como estudo de caso, Montão de Trigo, uma ilha localizada no litoral norte do estado de São Paulo. Empregou-se, assim, uma modelização gráfica da ilha, a partir da qual se foi capaz de identificar determinados traços distintivos, tais quais a relação terra-mar; as ligações internas e externas; as centralidades intrainsulares; as formas de compartimentar o território; o direito de propriedade e o direito de uso do espaço insular; os graus de antropização; e, finalmente, o papel da influência marítima no assentamento humano. Palavras-Chave: Coremática; modelização gráfica; ilha; insularidade; Montão de Trigo (SP). Abstract This work shows the specific feature of the islands. To do so, we used the concepts of insularity, maritime dimension, coastal condition, sense of belonging to an island and archipelagic nature, that can describe different situations related to the islands. The main idea was to present these concepts by using some graphical depictions, which can go beyond the simple analogy with geographical reality that the maps usually present; by using, therefore, a method that could argue with images instead of words: the Chorématique, developed by the French geographer Roger Brunet. Firstly, with the current representation possibilities in terms of geometry, Brunet proposed some basic or structural images that can be used (separately or jointly) in different situations to show the most important aspects of a region. By applying this method to demonstrate the island distinctiveness, we created some basic images as well as Brunet done. Then, we presented a graphic model that shows the essential geography of Montão de Trigo, a small island in the northern coast of São Paulo State, Brazil. Among all the features of the island, there are different types of phenomena: relationships between ocean and land; domestic and foreign linkages; center places; natural and human regions; ownership and rights of use the land; degrees of human intervention; and, finally, the maritime influences in the process of human settlement.
doi:10.11606/d.8.2018.tde-30012018-185833 fatcat:ftltqwdbs5bzvcswfaca2e3je4