Presentation

Monica Fantin, Augusto Cesar Rios Leiro
2019 Perspectiva  
Apresentação Imagens, Mídias e Práticas Corporais "A expressão reta não sonha. Não use o traço acostumado. A força de um artista vem das suas derrotas. Só a alma atormentada pode trazer para a voz um formato de pássaro [...] O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê. É preciso transver o mundo." (Manuel de Barros) Em uma conjuntura política e educacional marcada pela (in)certeza e pela complexidade, movida por diferentes possibilidades midiáticas e tecnológicas, em tempos de cultura
more » ... tempos de cultura digital, pautar a tríade imagens, mídias e práticas corporais foi um desafio literário singular. O enunciado aberto do dossiê, ao lado da autonomia dos escritores convidados, possibilitava recortes acerca das políticas públicas, das produções imagéticas, das tecnologias educacionais, das reflexões acerca do ciberespaço, das releituras das culturas corporais, dentre outros temas, gerando na autoria desta edição do periódico qualitativa expectativa de socialização de estudos (inter)nacionais, em sintonia com o binômio educação e cidadania. E pensar a cidadania num contexto em que alguns direitos básicos estão sendo ameaçados requer do percurso formativo uma constante articulação entre os diferentes campos do saber que se constrói na ação educativa e investigativa. A necessidade de explorar novas fronteiras da educação e comunicação para atuar em tal realidade envolve cada vez mais olhares múltiplos, plurais e interdisciplinares que atuam e transitam na perspectiva inter e transdisciplinar, de modo a transitar em diferentes territórios, práticas e narrativas, para "transver o mundo", como diz a epígrafe de Manuel de Barros. Inspirados na poética dessa possibilidade não linear de pensar a formação e a pesquisa, buscamos reflexões e práxis pedagógicas em que as imagens transpassassem os corpos e as mídiaso que nos desafia a entender melhor os distintos processos, vínculos e articulações que enlaçam imagem e educação nos Apresentação 12 processos de ensinar e aprender característicos do mundo contemporâneo. Interfaces e nuances que envolvem abordagens epistemológicas, filosóficas e pedagógicas sobre a tríade imagem, mídia e tecnologia, bem como sobre as experiências centradas nas práticas corporaisentendidas a partir da corporeidade e corporalidade como possibilidades enunciativas -, tendo como fio condutor a educação e a possibilidade de construção de conhecimento de si, do outro e do mundo. Imagens, práticas e conhecimentos que hoje necessariamente se entrecruzassem pela e com cultura digital. Se na década de 1960, McLuhan (2007, p. 33) dizia que a tecnologia elétrica adentrava os muros, e nós somos insensíveis, surdos, cegos e mudos ante a sua confrontação com a tecnologia de Gutemberg, para Han (2017, p. 11), hoje, passa-se o mesmo com o digital, pois somos mais uma vez "programados por suas mídias" sem perceber a radical mudança de paradigma. Na esteira do digital, que, "sob decisão consciente, muda completamente o nosso comportamento, a nossa percepção, a nossa sensação, o nosso pensamento, as nossas formas de convivência." Segundo o autor, "embriagamo-nos com a tecnologia digital, enquanto somos incapazes de avaliar plenamente as consequências de nossa embriaguez. São esta cegueira e a obnubilação simultânea que a acompanha que definem a crise atual". Embora possamos (re)levar o tom de certas visões, é fundamental pensar nos desafios da educação e da comunicação num momento atravessado por tensões, intolerâncias que fazem parte desse "enxame digital", como diz Han (2017), formado tanto por indivíduos isolados, sem um sentimento de "nós" que lhes possibilite uma ação comum, como por coletivos outros, silenciosos ou ruidosos. Para o autor, "a hipercomunicação digital destrói o silêncio [de] que a alma necessita para refletir e para ser ela própria", pois "ouvimos apenas o ruído sem sentido e sem coerência", e "tudo isso impossibilita a formação de um contrapoder que possa pôr em causa a ordem estabelecida" (HAN, 2016, quartacapa). No entanto, esse contrapoder também se constrói na comunicação constituída de formas não verbais, nos gestos, nas expressões faciais, na linguagem corporal e nas formas que conferem um caráter tátil aos modos de comunicar. E, diante da pluralidade de dimensões e níveis da percepção humanaque não se reduz ao visual, mas solicita a participação de outros sentidos -, por vezes, o meio digital tanto pode retirar quanto intensificar seu caráter corporal e tátil. Afinal, o tocar com a ponta dos dedos na tela é uma ação que transforma a nossa relação
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