Meios e audiências: a emergência dos estudos de recepção no Brasil

Graça Craidy
2009 Revista FAMECOS  
Recepção sem tapa-olhos. Quem assina o prefácio é um dos papas da recepção latino-americana, respeitado metodologista no campo da comunicação e o autor com maior impacto nas pesquisas do livro Meios e Audiências (2008): o espanhol Jesus Martín-Barbero. O celebrado autor de Dos meios às mediações (2003), que vive há quase meio século na Colômbia, aproveita o espaço para reconhecer também o valor da pesquisa brasileira, reputando-a como a mais inserida no estudo da formação histórica da cultura
more » ... tórica da cultura nacional, na América Latina. Barbero elogia o tratamento justo do livro à pluralidade das visões e à revelação da heterogeneidade social do Brasil, mostrando-se encantado com o "grande e denso país que aparece entre suas linhas e nos seus intermeios" (p.14). Ele louva também a abertura ao debate metodológico do campo da comunicação para além do dualismo e aplaude a não-complacência das autoras com o que chama de: 1. "teoricismos disfarçados de pesquisa qualitativa para mascarar a ausência de referenciais da realidade"; 2. "incapacidade de formular conceitualmente o lugar a partir do qual construir o problema do conhecimento"; 3. "escapismos e modas teóricas" que fragilizam epistêmica e metologicamente o ainda carente campo científico da comunicação (p.12). Meios e Audiências (2008) é coordenado pela pesquisadora de Estudos Culturais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Nilda Jacks, que integra a equipe de autoras junto com suas orientandas Daiane Menezes e Elisa Piedras. Este outro, o receptor Já na primeira epígrafe do livro Meios e Audiências, o receptor é apresentado aos olhos contemporâneos bem diferente do visto pelos antigos tapa-olhos -ditos "ideologizados" -dos anos pré 90. Fica-se sabendo que a recepção é um processo que não acontece apenas ali, na hora da interação com o meio de comunicação. Que começa muito antes do sofá. E que termina bem depois de o receptor desligar a TV. Na verdade, a recepção é construída "no tempo longo da formação do habitus (Bourdieu), dos gostos e dos valores" (p.13), explica Barbero, no prefácio, reportando-se à outra pesquisa de Jacks sobre recepção no Brasil, publicada no livro Querência: cultura regional como mediação simbólica (1999). Para Jacks, a recepção se funde com as práticas cotidianas. É negociada com outros significados do repertório do receptor: os que ele recebeu da família, da escola, da religião, do partido político, da empresa, etc. E muda de figura também conforme o gênero, a idade,
doi:10.15448/1980-3729.2009.38.5312 fatcat:yqbxkybhmvg6blboljrm2ywb4m