Teoria dos Polissistemas e Pesquisa em Cultura

Natália Regina Silva
2019 IPOTESI – REVISTA DE ESTUDOS LITERÁRIOS  
Sistema, ou melhor, pensamento relacional, tem proporcionado às ciências humanas ferramentas versáteis para economizar na análise de fenômenos sociossemióticos. Isso permitiu reduzir significativamente o número de parâmetros pressupostos para trabalhar em qualquer contexto dado, assim tornando possível se desfazer de enormes nomenclaturas e classificações intrincadas. Em vez disso, um conjunto relativamente pequeno de relações poderia ser hipotetizado para explicar uma vasta e complexa gama de
more » ... e complexa gama de fenômenos. Esse poder explicativo do pensamento relacional tem sido usado com algum sucesso em vários domínios das disciplinas sociossemióticas. O poder do pensamento relacional não para, entretanto, no nível de análise de fenômenos "conhecidos", que são basicamente explicativos. O mesmo também se situa e talvez, ainda mais intensamente, na habilidade de depreender objetos não assimilados, ainda desconhecidos, assim transformando-o em uma ferramenta de descoberta. Ao hipotetizar uma relação como uma explicação para um objeto (uma entidade, um processo, etc.), o pensamento relacional pode chegar a pressupor a "existência" de alguns fenômenos que não foram reconhecidos anteriormente. Os procedimentos para chegar a tais conclusões são naturalmente menos adequados do que em disciplinas com capacidade de cálculo (como astrofísica ou mecânica quântica). Todavia, os primeiros pioneiros do pensamento relacional moderno têm usado por completo esse caminho quando sugeriram a fonologia para substituir a antiga classificação de sons. Através da hipotetização de relações entre sons, uma nova entidade surgiu, o fonema. A série de sons identificada ao longo de tantos séculos por gerações de gramáticos foi, então, transformada em algo desconhecido, em um conjunto de sons de oposição-dependência os quais foram, por muito tempo, considerados (e podem ser considerados dessa forma mesmo atualmente), como constructos puros, isto é, entidades que não podem ser diretamente observadas. Não obstante, nos anos 20, mais um passo foi dado por Sapir, que argumentou que um fonema não é apenas um constructo explicativo, mas também a real unidade cognitiva do som, ao invés do som per se (Sapir 1968(Sapir [1933). Dessa forma, o que era um som "real" e o que era um som acidental trocaram de posições. O som tradicional se tornou acidental, enquanto o fonema foi analisado como o som real, a unidade de som analisada pelos aparatos cognitivos humanos. O exemplo da fonologia, no entanto, não tem sido seguido pela maioria dos que trabalham com teorias de sistema. Dentre eles, o exemplo Saussuriano do xadrez parece ter sido mais inspirador. Nesse exemplo, o objeto do escrutínio é marcado para nós, e é inteiramente conhecido, pelas nossas tradições culturais estabelecidas. O que o pensamento relacional pode ter adicionado é uma versátil e econômica análise de xadrez, substituindo um conjunto infindável de descrições intrincadas. O mesmo se aplica a conjuntos mais complexos, como língua e literatura, e talvez também, sociedade e semiose em geral. Em todas essas abordagens, o pensamento sistêmico proporcionou uma melhor racionalização e, talvez, ferramentas mais sofisticadas. Todavia, a existência do objeto de estudo como tal não é contestada ou disputada, mas, ao contrário, é tida como certa. A falta de disputa sobre o objeto é típica de grandes áreas das humanidades. Isso certamente tem dificultado, em minha opinião, práticas científicas nessas áreas. Pois, enquanto as ciências, em suas tentativas de desenvolver ferramentas explanatórias para a
doi:10.34019/1982-0836.2018.v22.25652 fatcat:pfewkexteraz7a4m6oaic42o5q