Segurança Rodoviária Não é um Acidente: Desafios Para a Saúde

Bernardo Gomes, André Peralta-Santos, Maria Moitinho de Almeida
2020 Acta Médica Portuguesa  
No ano de 2018, ocorreram em Portugal 34 235 acidentes com vítimas e morreram 675 pessoas. 1 Mais de 10 pessoas por semana, o equivalente a 66 mortes por cada milhão de habitantes -a União Europeia registou uma média de 49 óbitos por milhão no mesmo período. A mortalidade rodoviária em Portugal foi das que mais decresceu desde 2010 (menos 35% de óbitos) mas os esforços realizados não foram suficientes para alcançar a média europeia. Um dos resultados mais perturbadores do relatório da
more » ... atório da Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária foi o aumento de 12% no número de mortos entre 2017 e 2018. A tendência de estagnação ou inversão na redução do número de mortes é visível em toda a União Europeia -é conhecida a relação da sinistralidade com ciclos económicos, mas existem mais determinantes a estudar. Apesar da carga brutal que os acidentes rodoviários representam para a sociedade portuguesa -ao causarem mortes prematuras e incapacidades vitalícias -existem poucos estudos conhecidos que tracem o perfil destes acidentes nas nossas estradas recorrendo a técnicas modernas de geolocalização e a segmentação do perfil dos envolvidos. O Plano Estratégico Nacional de Segurança Rodoviária -PENSE 2020 2 mostrou resultados positivos no período de 2011 a 2015. Apesar da diminuição acelerada do número de mortes, o número de acidentes manteve-se, salientando a importância de fatores relacionados com o comportamento humano e gestão do sistema rodoviário (que inclui legislação, policiamento e informação). Sugerimos quatro eixos que poderão beneficiar de maior envolvimento dos profissionais de saúde. Uma melhor utilização dos dados Os dados públicos disponíveis não permitem uma análise rigorosa de fatores de risco. Seria útil empreender métodos analíticos mais sofisticados para perceber de que forma as políticas de prevenção rodoviária influenciaram a evolução da sinistralidade. É necessário ir para além da mera identificação de pontos negros nas nossas estradas e da análise descritiva de relatórios. A comunidade científica poderia elaborar mapas de risco -mas para tal é necessário que estejam dados disponíveis para iniciativas colaborativas. Estes dados, anonimizados, deveriam ser um bem público. A escassez de evidência transcende a realidade da sinistralidade e de Portugal: é um problema a nível global, embora existam exemplos de boas práticas. A cidade de Leeds e o Estado da Califórnia já partilham abertamente os seus dados de sinistralidade rodoviária (data.gov.uk; healthdata.gov); e em certos países nórdicos existem institutos especificamente dedicados à investigação em transportes e rodovias. Propomos a divulgação alargada do 'perfil de risco' das estradas, em função da sinistralidade no último ano e nos últimos cinco anos. A sinalização à entrada de troços específicos com mensagens alusivas poderia ser reforçada e a construção de vias futuras teria evidência adicional disponível. A colaboração com recursos humanos qualificados é uma condição para que os dados, que já são recolhidos pelos diversos serviços do Estado, se transformem em mais conhecimento e melhores políticas. Estudar e mudar comportamentos Estudos internacionais sugerem que a estratégia mais eficaz para reduzir o número de acidentes da estrada é o policiamento para assegurar a aplicação da lei. As intervenções educacionais por si só provaram ser insuficientes na promoção de mudanças culturais, embora não devam ser descuradas como estratégia de suporte. 3 Tal como referenciado pelo PENSE, 2 parece haver persistência de comportamentos de risco, apesar de haver mais segurança. Condutores, passageiros e peões compreendem os riscos dos seus comportamentos e conhecem também o código da estrada. A investigação do tipo Palavras-chave: Acidentes de Trânsito; Condução de Veículo; Portugal; Segurança
doi:10.20344/amp.13540 pmid:32238233 fatcat:rxh6lsfthvgvjgjuolkjocs7tm