Notas para uma teoria do espectador nômade

Fernando Mascarello
2012 Novos Olhares  
Resumo O texto toma a questão do espectador na teoria do cinema como objeto de estudo e a analisa criticamente sob o ponto de vista de diferentes posturas teóricas disponíveis na modernidade e na pós-modernidade. Introdução Não há qualquer exagero em se afirmar que é o espectador o tema dominante, ou condutor, da teoria do cinema nos últimos trinta anos. Da inovadora intervenção de Jean-Louis Baudry, em tomo do sujeito-espectador transcendental, ao contemporâneo debate entre os Estudos
more » ... e o cognitivismo, a história da teoria, durante esse período, pode ser narrada em termos de seu infatigável esforço em prover resposta às indagações envol vendo a relação entre as audiências, a obra e a instituição cinematográficas. Nesta relação, o cinema popular, de entretenimento, ocupa lugar de destaque. Os teóricos da década de 70 se empenham em fundamentar sua condenação, desde uma ótica moder nista e revolucionária que reúne semiologia, althusserianismo e lacanismo. O cinema dominante (ou suas formas textuais) é visto como elemento de subjetivação do espectador à ideologia do capitalismo. Datam deste período, além dos escritos de Baudry, as formulações hoje igualmente clássicas do segundo Christian Metz, de Laura Mulvey e de Stephen Heath. Já a teoria dos anos 80 e 90 se caracteriza pela revisão dos excessos cometidos pelos ensaístas de Cinéthique, Cahiers e Screen, reava liando e heterogeneizando a compre ensão do espaço configurado por cinema popular e seu espectador. Isto sucede particularmente no cenário anglo-americano, onde os Estudos Culturais, representados por suas vertentes etnográficas, feministas e historiográficas, entre outras, aparecem como corrente teórica mais influente. Estes teóricos e pesquisadores são res ponsáveis pela derrocada do pressu posto central da reflexão dos anos 70, seu absoluto determinismo textual, que é substituído por um esquema concei tual onde o contexto de recepção da obra passa a ser privilegiado. Como conseqüência, abandona-se a concep ção de um espectador passivo unilateralmente produzido pela instância do texto, e se reconhece a capacidade das audiências de negociação com o filme hollywoodiano. Além disso, nos últimos anos a escola cognitivista liderada por David Bordwell e Noël Carroll lança um pesado ataque aos fundamentos psicanalíticos e ideológicos da "Grand Theory" do pós-68, que em seu entender sobrevive através do culturalismo. Os avanços alcançados são certamente significativos, mas até o momento não trazem ao problema soluções teóricas plenamente satisfatórias. Mesmo nas formulações mais pluralistas, a discussão parece seguir pautada (e reduzida) por vários dos parâmetros projetivos -políticos, estéticos e morais -usados pela teoria modernista, os quais tendem a ver com desconfiança os prazeres experimen tados com a produção mainstream. Por exemplo, a aceitação teórica destes prazeres, por parte dos Estudos
doi:10.11606/issn.2238-7714.no.2001.51349 fatcat:ofztkiz6ovh7dffaea7cmmuqgq