Inovação/tensão entre poderes e saberes..

Denise Leite
2003 Interface: Comunicação, Saúde, Educação  
O provocativo texto de Cunha induz-me a duas leituras. A primeira, que faço do fim para o começo, chama-se "Inovações pedagógicas em tempos de silêncio". A segunda, da qual propositadamente retiro um tópico do título, leio como "Inovações pedagógicas e possibilidades de produção". Na primeira alternativa, a do fim para o começo, encontro na autora um certo ceticismo sobre a condição do professor, alguém capaz "de viver nos limites, submetido à lógica predominante nos processos sociais e
more » ... os" (e me pergunto se esta seria uma lógica única pois a palavra lógica está no singular). Este ser professor encontra possibilidades de navegação em novas fronteiras. Fronteiras essas, ao que parece, adversas. Os professores estão em silêncio, realizando práticas que estão "às margens." Essas práticas das margens seriam as inovações pedagógicas. Na leitura que faço, parece que o docente, ao optar pela inovação, carregaria consigo um certo sofrimento provocado pela padronização dos seus saberes, afetados pelo reforço da "condição de visão única." A visão única de ciência, como única forma do conhecer, produziria uma só alternativa de formação docente, provocando "cegueira epistemológica e valorativa". Entre os elementos que favorecem o "problema" encontra-se a avaliação regulatória que imobilizaria as inovações. Isto provoca o silêncio docente. Ou seja, não há espaço para a contradição -a reação se daria em cadeia, causas e efeitos em circulação constante. Tenho dúvidas em aceitar esta leitura, conquanto ela seja possível. Valorizo, então, a segunda alternativa, aquela das possibilidades de produção. Nesta forma, a autora diz que as inovações "se materializam pelo reconhecimento de formas alternativas de saber e experiências" nas quais se imbricam conceitos que parecem estar em pólos opostos (teoria e prática; senso comum e ciência, natureza e cultura; objetividade e subjetividade). Ao reconhecer "a diferença", os professores trabalhariam para transformar inquietudes em energias emancipatórias e seu trabalho consistiria em "gerir relações sociais com seus alunos". Como o texto não contextualiza o professor a que se refere, vou supor que se trata do professor em preparação para a docência, o licenciado que se está formando em nossas universidades para atuar no sistema de ensino. Se este for o caso, todos nós ficaríamos muito contentes se ele dominasse, pelo menos, os princípios e os conceitos dessa "ciência única". Gostaríamos que este professor, preocupando-se ou não, com rupturas paradigmáticas, ensinasse bem a seus alunos. Gostaríamos que ele tivesse a compreensão de que o conhecimento-regulação, aquele da "ciência única", "(...) implica uma trajetória entre um estado de ignorância a que chamo caos e um estado de conhecimento a que chamo ordem", como diz Santos (2002, p.228). Parece-me que esta compreensão não está bem delimitada em nossas universidades. Talvez nos falte provocar uma certa tensão entre a visão da ordem e a visão do rompimento com a ordem. Há um compromisso, como diz Santos, entre o pilar da regulação e o da emancipação, pois as formas de conhecer, de produzir saberes, precisam equilibrar-se, estar em tensão dinâmica. Cada forma de conhecer retira da outra as suas energias, seus movimentos, seu crescimento e acumulação. Fora disto, temos desequilíbrio.
doi:10.1590/s1414-32832003000200012 fatcat:vhgxrrmnlrcarpau3w2nbttbpu