Algaravia em torno de um desastre

Carlos Alberto Ferreira Martins
2018 Risco: Revista de Pesquisa em Arquitetura e Urbanismo  
Professor Titular e ex-Diretor do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP. convite da editoria da Risco para inaugurar este espaço surgiu a propósito de uma pequena coluna para um jornal local de São Carlos que comentava, nos limites de espaço e público, que as manifestações de trabalhadores do 1º de Maio haviam sido obscurecidas pela notícia de um incêndio que consumiu em poucas horas um edifício ocupado por um movimento de moradia na área central da capital paulista. Como sempre ocorre
more » ... mo sempre ocorre nesses casos, distintas narrativas prontamente se apresentaram, boa parte delas mais para comover do que para informar a chamada opinião pública. Na grande mídia prevaleceu a narrativa da tragédia que, como é habitual, se estruturou em torno de heróis e vilões, deixando as vítimas relegadas ao purgatório de um espaço cinzento, desumanizado como suas vidas cotidianas. Os heróis foram, como usual, os bombeiros e algum cidadão capaz de colocar a solidariedade acima de sua própria segurança. Como ficamos sabendo aos poucos, neste caso, tratou-se de um jovem chefe de uma equipe de "chapas" da zona cerealista, conhecido por Tatuagem, que depois de salvar quatro crianças do incêndio acabou por sucumbir soterrado no instante em que estava por ser, ele próprio, resgatado. O heroísmo do jovem e os depoimentos de seus colegas de trabalho criaram um certo ruído para a caracterização generalizante dos ocupantes como "vagabundos". Os vilões, para a grande imprensa e alguns políticos oportunistas de plantão, foram, também como de hábito, as próprias vítimas. Além da desqualificação dos moradores, jogou-se a culpa no MTST e em Boulos embora nem este movimento nem sua liderança tivessem qualquer papel naquela ocupação em particular. _O
doi:10.11606/issn.1984-4506.v16i1p4-7 fatcat:dl63zhep3zgybp3pn2prozpuf4