Possibilidade da palavra

Noemi Jaffe
2000 Teresa  
Carlos Ávila [Perspectiva, 1999,176 p.] Eu não tenho nada a dizer e o estou dizendo e isto é poesia |John Cage| Para alguns poetas só é possível escrever poesia quan do se sabe que é impossível escrever poesia. E por que ra zões? Porque o coração é maior e menor que o mundo; porque querer dizer algo depois de tantos desastres histó ricos é sempre uma tarefa de lidar com o absurdo; porque a palavra, querendo chegar nos limites do corpo e dos sen tidos, mal consegue deles se aproximar; porque
more » ... roximar; porque diante das coisas, o poema fica, enquanto elas vão; e talvez, enfim, porque as coisas são, enquanto o poema quer ser. Mas o que acontece, para surpresa de poetas e leitores, é que é justamente como fruto da convicção dessa dificul dade que se fazem poemas possíveis. A impossibilidade não desaparece -mas é ao dizê-la que se constrói um no vo possível, e o poema significa; ele se torna um objeto que dá nome ao impossível da expressão. Objeto tenso, nascido do paradoxo, que, consciente de sua condição, pende entre dois pólos: melancolia e ironia. A partir dessa consciência, João Cabral e Paul Celan, por exemplo, fizeram uma poesia de pedra, de lâmina e silêncio. Não é exata mente o caso de Carlos Ávila, que escreve poemas em que o não-dizer fica perto do não-dizer dos sapatos, e não o da lâmina; o não-dizer do cascalho e não o da pedra; o não-di-
doi:10.11606/issn.2447-8997.teresa.2000.121096 fatcat:xdoedgdk7jh4bno4e4dl3tkvya