Diálogo "interessantíssimo": Roger Bastide e o Modernismo

Fernanda Peixoto
1999 Revista Brasileira de Ciências Sociais  
As relações que se estabeleceram entre Roger Bastide e o grupo modernista em São Paulo não constituem novidade para os estudiosos que se debruçaram sobre estes autores, nem para aqueles que se dedicaram à compreensão do período de modo mais geral. Aqui e ali, encontramos indicações valiosas sobre as afinidades existentes entre Bastide e os intelectuais modernistas, entre Bastide e Mário de Andrade (cf. , p. 56). Se as pistas são várias, não há até o momento um balanço da amplitude e do sentido
more » ... itude e do sentido desta interlocução. E é este o objetivo deste artigo: retomar parte das sugestões já fornecidas, articulando-as em um novo conjunto. A idéia é examinar as várias faces do diálogo travado entre Bastide e os moder-nistas, destacando Mário de Andrade como um interlocutor privilegiado. Levando adiante algumas pistas lançadas e procurando outras, o meu objetivo é mostrar que os primeiros passos de Bastide no Brasil são dados segundo a orientação de um roteiro previamente traçado pelo grupo paulista, e por Mário de Andrade em particular. Bastide refaz um percurso de coloração modernista -temas, viagens, leituras -e, ao fazê-lo, descobre novos atalhos. "Turista aprendiz" que durante suas andanças vai introduzindo alterações na rota original. Mas, é bom frisar, o diálogo entre Bastide e o grupo modernista não é apenas um entre outros. Além de representar uma espécie de iniciação do francês em terras tropicais -diálogo inaugural, portanto -, é através dele que Bastide define o seu lugar como intérprete da sociedade e da cultura brasileiras. Como procurarei mostrar, é no debate com os modernistas que o sociólogo problematiza o seu olhar de estrangeiro -logo, a sua identidade -na busca da "alma brasileira", estabelecendo um patamar de observação. Ao dizer isto, entretanto, o meu propósito não é reivindicar para Bastide um lugar de herdeiro do modernismo. Não se trata de herança, no sentido de legado transmitido, mas sim da construção de um ângulo de análise por meio do * Este artigo, originalmente apresentado no GT Pensamento Social Brasileiro, XXII Encontro Anual da Anpocs, Caxambu, MG, outubro de 1988, é uma versão resumida e ligeiramente modificada do primeiro capítulo da minha tese de doutorado, Diálogos brasileiros: uma análise da obra de Roger Bastide, defendida na FFLCH da USP em 1998. Gostaria de agradecer ao membros do GT, e sobretudo a Ricardo Benzaquen de Araújo, pelos comentários e sugestões.
doi:10.1590/s0102-69091999000200008 fatcat:xx2hu2gbo5evnfrj3lfmir7api