Para além do direito a morrer: notas sobre "Solitário Anônimo" Saúde & Transformação Social

Emerson Rasera, Correspondente Emerson, Fernando Rasera
2013 unpublished
RESUMO-O debate sobre o ato de terminar com a própria vida tem envolvido diferentes expressões que competem na definição de como entendê-lo. O documentário "Solitário Anônimo" contribui com esse debate ao produzir uma narrativa que convida à afirmação do direito das pessoas em fazê-lo. O objetivo desse ensaio é desmontar alguns dos procedimentos de construção do filme e apontar como eles produzem reverberações relativas ao cuidado e ao morrer. Na análise do filme, dois processos se tornam
more » ... sos se tornam relevantes para a defesa de tal direito: a) a construção da autonomia do protagonista e a negação de sua identidade, e b) a oposição entre a equipe de saúde e o protagonista. A partir da reflexão crítica sobre os riscos de generalização e moralização produzidos por tais processos, convidamos à adoção de uma 'responsabilidade relacional' nas questões de vida e morte, que possa produzir uma abertura para a transformação das relações entre profissionais de saúde, pacientes, e a sociedade. Palavras-chave: Direito de Morrer; Relações Médico-paciente; Cinema como Assunto. ABSTRACT-The debate over the act of taking one's own life has involved different expressions that compete in defining how to understand it. The documentary "Alone and Anonymous" contributes to this debate by producing a narrative that claims the right of people to do it. The purpose of this essay is to deconstruct the film procedures and point out how they make sense of care and dying. In the analysis of the film, two processes become relevant to the defense of that right: a) the construction of the protagonist's autonomy and the denial of his identity, and b) the opposition between the health team and the protagonist. From the critical reflection on the risks of generalization and moralization produced by such processes, we invite the adoption of a 'relational responsibility' in matters of life and death, which may produce an opening for the transformation of the relationship between health professionals, patients, and society. 1. INTRODUÇÃO "Me deixe morrer em paz". É o pedido insistente e frustrado do protagonista de "Solitário Anônimo" 1. Ao assistirmos esse documentário, sentimentos de ultraje e compaixão se misturam. De um lado, o ímpeto salvador dos profissionais de saúde parece impedi-los de ver o outro em sua alteridade e desejo. De outro, um senhor idoso não consegue fazer valer o seu último desejo, sendo-lhe negada a possibilidade de morrer. Paradoxalmente, o direito à vida se torna uma obrigação. O filme relata, de forma instigante, os percalços vividos por um senhor que se muda para uma pequena cidade com o intuito de morrer por meio do abandono da própria alimentação. Contudo, ele é resgatado por uma equipe de saúde, a qual cuida de seu corpo e o impede de atingir seu objetivo. Por meio dessa narrativa, o filme parece nos sensibilizar sobre a importância em aceitar o seu direito em definir sua vida e sua morte. O impacto emocional decorrente da primeira vez que se assiste ao documentário pode, facilmente, nos levar a entender o filme como tendo uma narrativa na qual os profissionais de saúde são tidos como os algozes, cujos atos técnicos bem definidos os dessensibilizam para o respeito essencial à decisão sobre a própria vida de um senhor desamparado em sua batalha por viver e morrer como deseja. Contudo, ao rapidamente nos posicionarmos em favor do senhor e seu direito à decisão sobre a própria vida, talvez, findemos a conversa precipitadamente e deixemos de refletir porque essa forma de cuidado parece natural e justificada para os profissionais.
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