Bases sociais e intérpretes da "tradição trabalhista" no Rio Grande do Sul

Igor Gastal Grill
2005 Dados: Revista de Ciências Sociais  
48, n o 3, 2005, pp. 525 a 557. consagração, nos discursos oficiais, do dirigente político e estadista. Por outro, tais elementos se fundem, no Rio Grande do Sul, com as narrativas de lutas e resistências que atravessaram o século XX, produzindo "heróis" que ascenderam politicamente, enfrentando eleitoral e militarmente inimigos políticos. A partir do final da década de 1970, o padrão de celebração dos ícones da "tradição" ganha novo impulso, depois de duas décadas de regime militar. Os
more » ... militar. Os políticos identificados com o trabalhismo, que militaram no MDB * e foram cassados ou exilados, transmitiram suas lembranças no quadro familiar e nas redes de sociabilidade afetiva e política 1 . Contudo, não se pode sustentar que essas lembranças fossem "proibidas", "indizíveis" ou "vergonhosas"; elas apenas formavam um estoque de referências cuja utilização pública exigia triagens, sínteses e omissões e relegava a valorização e enunciação de determinados eventos, símbolos e ícones ao lugar de lembranças "zelosamente guardadas em estruturas de comunicação informais" (idem:8). A emergência de uma conjuntura favorável, com a abertura política e a reintegração dos principais quadros do trabalhismo na cena política nacional, configura a ocasião para que parte dessa memória se situe novamente no espaço público, inclusive como objeto de disputa. Uma série de agentes e partidos se autorizou, através de itinerários e recursos distintos, para acionar essa memória. Esse trabalho de memória inclui a utilização do passado como estratégia de garantir não só a coesão das coletividades e a complementaridade entre as partes, mas também as "oposições irredutíveis" (idem:9). Tal esforço está presente nas práticas que visam homenagear e redefinir o "espólio político". A ativação do passado é, assim, obra de múltiplos agentes e instituições que estabelecem simultaneamente quadros de referência e um trabalho de enquadramento. Os quadros de referência são os sentidos a serem disputados e sobre os quais se alicerça o "passado comum", definindo as fronteiras sociais e políticas que circunscrevem os postulantes à herança. Como tal, não sucumbem à arbitrariedade dos discursos, pois exigem a justificação das práticas e dos usos, assim como impõem o "imperativo da coerência" nos discursos sucessivos. Como sustenta Pollak:
doi:10.1590/s0011-52582005000300003 fatcat:l7ez542iqbcndadclnmboq6mpa