Entrevistar crianças/jovens: relato de uma experiência em contexto hospitalar

Carla Hiolanda Ferreira Esteves
2014 Saber & Educar  
Resumo O presente artigo pretende ser uma reflexão acerca de uma experiência de entrevistar crianças e jovens, entre os 5 e 14 anos, em contexto de internamento hospitalar num hospital da zona de Norte de Portugal. Estes foram inquiridos sobre a sua experiência de interação com doutores-palhaços. A par de uma abordagem teórica sobre a ética e a investigação com crianças e jovens, apresentam-se todos os cuidados éticos tidos na preparação e execução da entrevista (antes e durante a entrevista),
more » ... nte a entrevista), bem como as dificuldades sentidas pela entrevistadora e que poderão ter condicionado o desenrolar das entrevistas e a recolha dos dados inerentes às mesmas. São apresentados e analisados fatores como a idade, o temperamento e o estado físico da criança e jovem. Para exemplificar, são apresentados excertos de entrevistas. Finalmente, são feitas algumas reflexões que procuram enquadrar as dificuldades referidas e validar a metodologia qualitativa que é a entrevista. Palavras-chave entrevistas; análise qualitativa; hospitalização pediátrica. Abstract The text aims at reflecting upon the experience of interviewing children, between 5 and 14 years, in a hospital environment in the North of Portugal. They were inquired about their experience in interacting with clown-doctors. Along with a theoretical approach about ethics and research with children and youngsters, we describe all the ethical procedures undertaken in preparing and carrying out the interview (before and during it). We also analyze the difficulties felt by the interviewer and that may have interfered with the conduction of the interview itself and data collection during it. Factors like age, personality, and physical condition of the child and youngster will be described and analyzed. Excerpts of the interviews will be used to provide examples. Finally, we will discuss some conclusions with the aim of situating the difficulties and validate the interview as qualitative methodology in this context. Keywords Interviews; qualitative analysis, pediatric hospitalization Résumé Cet article représente une réflexion sur une expérience d'interviews d'enfants et de jeunes hospitalisés entre 5 et 14 ans dans un hôpital du nord du Portugal. O temperamento e maneira de ser da criança e adolescente também influenciaram o decurso das entrevistas, na medida em que a timidez ou a excessiva vontade de intervir e comentar fizeram com que a entrevistadora ou tivesse de estimular, no primeiro caso, ou refrear, no segundo. Por exemplo, a criança com código RF29, com 9 anos, não conseguia, dada a sua timidez, desenvolver a sua opinião, procurando ser o mais sucinta possível. Apresenta-se o seguinte excerto: Pergunta: Tu achas normal haver palhaços no H? Resposta: Não. Pergunta: Porquê? Resposta: Porque nos hospitais é para se curarem... Pergunta: Sim... Resposta: E não é para brincar. Pergunta: Não é para brincar nos hospitais? Mas não 1 0 2 foi bom terem passado o palhaços? Resposta: Foi. Pergunta: Então achas que não se pode brincar nos hospitais? Resposta: Pode-se... Por outro lado, crianças eufóricas e excitadas com a visita participavam de forma desorganizada, tendo sido necessário, às vezes, chamar atenção (Pinky, 10 anos): Pergunta: Gostaste da visita do palhaço? Resposta: Adorei! Pergunta: Porquê? Resposta: Porque são muito divertidos, emocionantes. Pergunta: Em que sentido? O que queres dizer com isso? Resposta: São muito fixes... Pergunta: "Fixes" porquê? Resposta: Sabem fazer pedidos de casamento muito demorados 1 . Pergunta: Ok, muito bem. Do que mais gostaste na visita que eles te fizeram? Resposta: De eles casarem, foi um momento muito emocionante! Pergunta: Desenvolve um bocadinho a tua ideia... Resposta: Ele demora meia hora a pedi-la em casamento (...) Pergunta: Mas foi a própria brincadeira em si que mais gostaste? Resposta: Ó coitadinhos, está a chamar brincadeira ao casamento... Pergunta: Ó Pinky, podemos falar a sério um bocadi-nho... isto é um assunto sério, está bem? Resposta: Sim, foi muito giro; gostei muito deles... Surgiram também situações de crianças, avessas à reflexão, não se empenhavam de forma efetiva e producente na entrevista, como exemplifica este excerto (RDPA -11 anos): Pergunta: Gostaste da visita do palhaço? Resposta: Gostei. Pergunta: Porquê? Resposta: Fizeram-me alguma alegria... Pergunta: Deram-te alguma alegria, é isso? Resposta: São divertidos. Pergunta: O que fizeram que te fizesse rir? Resposta: Reclamar. Pergunta: Reclamaram do quê? Resposta: De eu não.... Oh, não sei, já não me lembro. Para além destas duas dificuldades identificadas e apresentadas, outra também surgiu em apenas um caso. De facto, dado o contexto hospitalar em que se desenvolveu este estudo, a dor física é uma variável influente. 3. O estado físico Um jovem (código ABCD), com 10 anos, assentiu em iniciar a entrevista, no entanto, consideramos que o cansaço sentido e manifestado no início da mesma poderá ter condicionado o desenvolvimento da mesma, nomeadamente na formulação das respostas: Pergunta: Gostaste da visita dos palhaços? Resposta: Gostei. Pergunta: Eu sei que estás um bocadinho cansado, se eventualmente, não conseguires falar, podes abanar a cabeça que depois eu falo por ti, está bem? Não te preocupes. Resposta: Está bem. (...) Pergunta: Por que achas que os palhaços vêm com fardas que parecem doutores? Resposta: Porque estamos num hospital... Pergunta: Ok, mas são doutores? Resposta: Não. Pergunta: então por que achas que trazem batas? Resposta: (silêncio) Pergunta: toda a gente anda de bata no hospital, é isso? Resposta: Para fazer pensar as pessoas. Pergunta: Pensar em quê? Resposta: Se são doutores ou não... Pergunta: E o que achas, tu? Resposta: Que não eram; eram palhaços... Pergunta: Se não são doutores, qual é a função deles no H? Resposta: Já estou cansado... Ao longo desta entrevista, este jovem foi muito parco nas suas respostas e a sua própria respiração indiciava esforço da sua parte; se por um lado tinha vontade de falar sobre o assunto até para se distrair, por outro tal não o impedia de sentir mal-estar. Assim, não se colocaram as perguntas todas do guião, uma vez que o jovem pediu, com gestos, a interrupção abrupta da mesma. Naturalmente, o seu pedido foi imediatamente cumprido.
doi:10.17346/se.vol19.84 fatcat:qlklny6k7nbjzf4zypizewi44m