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Márcio Freire
2005 Vértices  
Este artigo tem por objetivo o estudo das mortes dos grandes chefes-jagunços em Grande sertão: veredas. De maneira compacta, demonstra a realização do enredo, em suas várias faces e, de maneira não linear, a partir da estória romanesca ancorada no mythos da procura, nos permite realizar uma leitura arquetípica das mortes dos grandes chefesjagunços, destacando os processos de formação do herói. Palavras-chave: Arquétipo. Morte. Mythos da procura. Duelo. Grande sertão: veredas. This article has
more » ... This article has as its objective the study of the deaths of the great chief-gunmen in Grande Sertão: Veredas. It demonstrates the accomplishment of the plot in its various aspects and, in non-linear fashion -starting with the Romanesque story anchored on the myths of the search, it enables us to make an archetypical reading of the deaths of the great chief-gunmen, with emphasis on the processes of formation of the hero Key words: Archetype. Death. Myths of search. Duels. Grande sertão: veredas. Nisso está a serventia da literatura de/para Guimarães Rosa. Como o amante de Desenredo em pleno processo de desenredo amoroso, o texto de Guimarães Rosa 'quer apenas os arquétipos'. Ele 'platoniza', mesmo quando, aparentemente, historiciza. Silviano Santiago Naturalmente, e por motivos diversos, as mortes dos grandes chefes-jagunços merecem lugar de destaque em Grande sertão: veredas. Apesar de individuais, e particulares, todas, de certo modo, têm o mesmo nível de complexidade. O destaque a elas deve ocorrer não somente pela posição social e política que os chefes ocupam na pirâmide da organização, mas também, e derivando desse lugar social específico, da capacidade de determinarem e, mesmo de maneira indireta, de operarem transformações na organização social dos bandos. Saindo dessa esfera de especificidade própria à organização social do Grande sertão, o destaque a elas ainda encontraria justificativa devido ao lugar central e destacado que os protagonistas ocupam em toda estória literária. * 6 VÉRTICES, v. 7, n. 1/3, jan./dez. 2005 O lugar de destaque dos chefes se dá, inclusive, fisicamente, na descrição e caracterização dessas personagens e, geograficamente, no lugar espacial que ocupam. Basta atentarmos para o lugar ocupado pelos grandes chefes, o primeiro plano da cena, durante o julgamento de Zé Bebelo, ou mesmo o momento da chegada do bando de Joãozinho Bem Bem ao lugarejo onde se encontrava Augusto Matraga -"[...] o bando desfilou em formação espaçada, o chefe no meio. E o chefe -o mais forte e o mais alto de todos [...] era o homem mais afamado dos dois sertões do rio" (ROSA, 1995, p. 447) -para percebermos esse lugar central devidamente ocupado, caracterizado e personificado. Neste artigo, vamos procurar analisar as mortes dos grandes chefes-jagunços, discutindo o caráter arquetípico das mesmas e destacando os elementos próprios, recorrentes e universais, de caráter geral junto às mais diferentes formas narrativas, com o intuito de demonstrar que o romance de Guimarães Rosa pode ser lido, por meio da apropriação que faz de um dos mais difundidos arquétipos do romance arturiano, e de outros gêneros da tradição narrativa, como uma variação do mythos da procura, filiandose, também, por essa leitura, ao quadro clássico do romance de formação. Nesta forma de romance, o de educação ou aprendizagem, a transformação do herói, que tem origem em longo percurso pontuado por seus estágios de formação, é produto de um conjunto de circunstâncias, de acontecimentos, de atitudes, de empreendimentos, que modificam a vida. Dessa forma, o que temos é o destino do homem que se constrói, e, ao mesmo tempo, este se constrói, constrói seu caráter, fazendo com que a elaboração da vida-destino se confunda com a formação do próprio homem. Nessas circunstâncias, o herói e seu caráter se tornam uma grandeza variável, e o percurso dessa existência faz com que o "[...] tempo se introduza no interior do homem, impregnando-lhe toda a imagem, modificando a importância substancial de seu destino e de sua vida" (BAKHTIN, 2000, p. 237-239), condicionando-o a buscar a justa medida, pela reflexão de seus lances mais altos e de suas fraquezas mais humanas, fruto de um percurso que unirá as duas pontas extremas de uma vida, a primeira onde todas as formas de riqueza e pobreza encontram-se externamente, e a outra quando estas encontram-se já interiorizadas, uma a hora da infância; outra, a da velhice. A relação do romance com outros gêneros, dos quais ele apropria, não é, de maneira alguma, harmoniosa: o romance mantém com aqueles uma relação de insubmissão, quando os 'devora' para integrá-los e reinterpretá-los à sua própria construção; muitas vezes, lançando mão de um largo gesto paródico. Grande sertão veredas é um romance -"[...] o que equivale a dizer [...] se desenrola da mistura das formas épicas tradicionais" (ARRIGUCCI, 1994, p. 20). Entretanto, essas formas "[...] sofreram, no romance, mudanças tão profundas que se pode [...] falar de uma forma artística substancialmente nova" (LUKÁCS, 1999, p. 87) -que pode ser lido como centrado nos momentos cruciais referentes à formação do herói: a infância e o princípio de adolescência marcados pelo encontro com o menino e pela morte da mãe; as inquietações e descobertas como forma de amadurecimento ao ingressar no
doi:10.5935/1809-2667.20050011 fatcat:y4lg55egjngu5cjmmjn25s2m4q