A geografia e sua pertinência para o estudo da diversidade cultural - um território cigano

Ademir Divino Vaz
2006 Geography Department University of Sao Paulo  
Resumo: Nas últimas décadas a Geografia vem lançando novos olhares sobre as questões que se referem aos processos sócio-culturais como a construção de identidade, as vivências culturais, os diferentes modos de ser e agir que os diversos grupos sociais constroem no espaço. Este artigo apresenta um diálogo sobre a Geografia Cultural e seu referencial para a diversidade cultural apresentando um estudo realizado com uma Comunidade Cigana em Ipameri, Sudeste de Goiás. É propósito compreender os
more » ... compreender os diferentes elementos que constituem a formação de um território e a territorialização do grupo na cidade. A leitura dessa realidade sob a ótica da Geografia Cultural e os métodos de trabalho propostos por ela foram os suportes metodológicos para a execução da Pesquisa. Palavras-chave: Geografia; Diversidade Cultural; Ciganos; Território. Introdução Desde os anos setenta do século passado, vem se configurando, no quadro da produção geográfica, um horizonte denominado humanista cultural. Essa corrente tem se destacado a partir da ação e do interesse de geógrafos que têm refletido sobre as várias dimensões da ciência geográfica. Um novo olhar é lançado sobre as questões que se referem aos processos sócio-culturais como a construção de identidade, as vivências culturais, os diferentes modos de ser e agir que os diversos grupos sociais constroem no interior das classes, as múltiplas relações e significações que os sujeitos estabelecem no seu espaço. A representação espacial significa para a geografia humanista cultural, segundo GOMES (1996) , mais do que uma indicação da localização dos fenômenos. Por meio dela é possível resgatar a inteligibilidade que os fatos espaciais adquirem quando são interpretados a partir de seus contextos próprios. Para este autor, quando os grupos humanos se organizam espacialmente, nem sempre têm consciência explícita de todos os processos de significação que são atribuídos e vividos cotidianamente no espaço. Assim, cabe também ao geógrafo, interpretar todo o jogo complexo de analogias, de valores, de representações e de identidades que figuram neste espaço. Admite-se que essa corrente epistemológica visa analisar de que modo os fatores culturais e de percepção interferem nas ações de organização e elaboração do espaço geográfico. Assim, esse espaço resulta não apenas das transformações econômicas, mas também das condições psicológicas e físicas dos indivíduos e das sociedades, sobretudo da experiência de vida de cada pessoa e das heranças culturais coletivas. A construção do conteúdo humanista cultural fez a Geografia buscar aporte teórico-metodológico em outras ciências, como na filosofia, na antropologia, na sociologia e outras, para melhor compreensão do espaço geográfico. As concepções metodológicas adotadas fundamentaram-se, principalmente, em pressupostos filosóficos da fenomenologia. Esses pressupostos, segundo BUTTIMER (1982), propõem para o estudo da geografia a análise dos espaços humanizados enquanto regiões culturais, domínios étnicos, territoriais, etc; espaços diferenciados segundo as disposições subjetivas dos homens-habitantes. Para a autora, os pressupostos apelaram por descrições mais concretas tanto do espaço e do tempo quanto de suas significações no dia a dia da vida humana. Sobre a fenomenologia, entende-se como uma alternativa de reflexão em relação à construção do conhecimento. Nesta abordagem, o espaço geográfico é tratado como o espaço social e dos horizontes sociais da experiência humana, os quais se manifestam nos processos de interação social e organização desse espaço. A Geografia e seu referencial para a diversidade cultural Aliada a esse horizonte humanista, a Geografia Cultural se fortalece e se dedica a rediscutir os conceitos da geografia e sua presença na evolução do pensamento geográfico desde meados do século XIX. PAUL CLAVAL (1999), em sua obra La Géographie Culturelle, destaca que o termo geografia cultural foi introduzido pela primeira vez na Alemanha por Friedrich Ratzel na década de 1880. Ratzel dedicou-se ao estudo dos fundamentos culturais da diferenciação regional da Terra reconhecendo nos povos a mobilidade como um atributo de sua essência.
doi:10.7154/rdg.2006.0019.0006 fatcat:nbht6z44jzh4jl2qon2vt6ym3m