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Silvina Merenson
2003 Mana  
Passados mais de 25 anos do golpe de Estado de 1976, os relatos e representações da violência política na Argentina convivem, gerando discursos plurais. Redundantes ou elusivos, todos se referem a memórias encontradas, recordações antagônicas em função de um presente que trama diversas perspectivas sobre o passado e de políticas que induzem a tensões entre a vontade e as possibilidades de recordar, encerrar e esquecer. Sem dúvida, esse livro faz eco a esse marco referencial, apresentando, ao
more » ... apresentando, ao longo de cinco capítulos, o modo como os familiares de desaparecidos políticos residentes na cidade de La Plata, capital da província de Buenos Aires, transmitem hoje suas estratégias de sobrevivência diante das rupturas causadas, na esfera íntima, pelo terrorismo de Estado em todas as suas formas. Esse livro -que no ano de 2000 recebeu o prêmio ANPOCS/CNP q de melhor tese de doutorado em ciências sociais -começa formulando uma pergunta inquietante: como é possível que, apesar das traumáticas e terríveis perdas de entes queridos, as respostas dadas pelos familiares de desaparecidos não apelem à violência ou à vingança como estratégia social? A socialização dos familiares na experiência do desaparecimento conduz a autora a problematizar as temporalida -des como uma dimensão da análise etnográfica. Desse modo, "La invención del mundo" e "Rompecabezas", os dois primeiros capítulos, acompanham a lógica dos fatos vinculados à desaparição. Descrevem um tempo individual e coletivo, ligado ao deslocamento maciço da ordem considerada normal, produzido pelo desaparecimento. Esse período -que começaria com os seqüestros e compreenderia o início da presidência de Raúl Alfonsin, em dezembro de 1983 -é o do reconhecimento dos familiares como pares na busca de respostas vinculadas tanto ao destino final dos desaparecidos, como àqueles elementos que permitiriam explicar os novos papéis e sta tusadquiridos. A abertura de um tempo de "espera", "ilusão" ou "esperança", induzido pelo seqüestro, em oposição ao da" morte", conjuga-se com um terceiro, vinculado às estratégias e ações políticas de caráter grupal, iniciado com a primeira ronda das "Mães" na Praça de Maio em 1977, e cuja última expressão, até o momento, foram os atos públicos que buscam identificar e tornar visíveis os implicados na repressão e no regime ditatorial. As manifestações desse tipo, denominadas es cra ches [escrachos], foram idealizadas pelo H.I.J.O.S. , grupamento que reúne os filhos de desaparecidos e assassinados durante a última ditadura militar. O ingresso destes últimos na cena política -na maioria dos casos com a mesma idade que seus pais no período de sua militância ou seqüestro -implica, como observa Catela, novas fórmulas, estratégias e ressignifica ções vinculadas ao modo de conce ber tanto a ação quanto os sentidos da recordação. Em "Desaparición", o terceiro capí tulo, a atenção dirige-se à categoria "desaparecido" e às maneiras como os familiares conferem significado a esse
doi:10.1590/s0104-93132003000100009 fatcat:6zvlgdxwurhelntphxx3ia225y