Sobre educar e transgredir

Marília Freitas de Campos Tozoni-Reis
2019 Ciência & Educação  
EDITORIAL O amadurecimento do campo da educação ambiental no Brasil, notadamente nos estudos e pesquisa em educação ambiental, é muito bom para todos nós e traz, por isso e com isso, muitos desafios. No âmbito da educação ambiental crítica, ou seja, aquela que olha, pensa e faz o ambiente considerando-o não somente natural, mas histórico, cultural, social e político, e, portanto, essencialmente contraditório, nossos desafios estão voltados para responder às necessidades ambientais nessa
more » ... ntais nessa perspectiva crítica. Nunca isso foi tão urgente e necessário como nesses tempos atuais obscuros -social e politicamente -em vários países do mundo. No Brasil, especialmente neste ano de 2019, isso está muito evidente, principalmente ao assumir o poder um governo que, como já anunciava em campanha, entre muitas outras perversidades pretende aprofundar a secundarização da proteção ambiental que já assistimos desde que essa proteção esteve em pauta no mundo. Esse aprofundamento chegou ao limite de propor a própria extinção do Ministério do Meio Ambiente que deveria diluir-se no Ministério da Agricultura, cuja orientação hegemônica é dada pelo Agronegócio: para nós nada mais assustador! A proposta foi, então, rejeitada pelo próprio setor agrícola -do Agronegócio -, e por isso foi abandonada ou pelo menos reformulada. Mas, a ideia em si é um importante indicador das posições e intenções que devem balizar, durante todo o mandato que agora se inicia, das políticas ambientais no Brasil, ou seja, obstáculos gigantes e perspectivas sombrias nos assolam. Ao mesmo tempo em que vivemos o aprofundamento da "desproteção" ambiental, tivemos, também, neste conturbado início de ano, uma das mais perversas e anunciadas tragédias socioambientais de nossa história: o rompimento da barragem da Mineradora Vale -que simbolicamente não é mais "do Rio Doce" -em Brumadinho, MG, depois de menos de três anos da também tragédia de Mariana, MG, que, além de anunciada já anunciava o sombrio 25 de janeiro de 2019. Sabemos que muitas outras estão por vir. Tragédias anunciadas não são acidentes, são crimes, crimes dolosos, quando há intenção de matar: matar pessoas, matar animais, matar matas, matar rios, matar sonhos e esperanças de vivermos e convivermos não harmoniosa, mas decente e equilibradamente no mundo social e natural, de construirmos relações dos seres humanos entre si e deles com a natureza, que valorize a vida, o belo e o bom.
doi:10.1590/1516-731320190010001 fatcat:pn6lllfp55hpfapxho3wfhu7nq