Fenomenologia e Psicanálise: o corpo na clínica

Marilsa Taffarel
2020 Blucher Social Sciences Proceedings   unpublished
Meu orientador de mestrado costumava dizer em suas aulas que Descartes separou a alma do corpo (res cogitans, res extensa) e desde então a filosofia tenta reuni-las de diversas maneiras. A Fenomenologia é uma delas. Essa incumbência coube também à Psicanálise que tratou dessa questão já antes da virada do século passado. Em 1890, Freud escreveu um trabalho que recebeu o título: Tratamento psíquico (tratamento da alma). Nas primeiras linhas ele esclarece que se trata de tratamento desde o
more » ... o, ou desde a alma, de perturbações anímica ou corporais. E acrescenta que as palavras são seu instrumento por excelência. Eis-nos hoje, novamente com esse interrogante: o corpo na clínica psicanalítica. Questão aqui colocada no contexto da relação possível entre Fenomenologia -um vastíssimo campo -e Psicanálise. Não esqueçamos, que também estamos inseridos no grande contexto de abrangência mundial da pandemia. Nosso contato com o analisando ficou intermediado pela internet e temos a presença pela palavra, pela fala e as expressões faciais (quando trabalhamos com a imagem também) como recursos, agora mais relevante ainda. Talvez um breve olhar sobre a fenomenologia possa nos ser útil.. Começarei falando do que é mais básico na fenomenologia e que, no entanto expressa seu caráter revolucionário em relação à ciência, à psicologia, e à filosofia que lhe antecederam e que ainda estão vigentes nos inícios do século XX . A fenomenologia parte da palavra de ordem de "uma volta às coisas", ao fenômeno, ao que é dado imediatamente à nossa consciência. Ao que percebemos com nossos sentidos, ao que falamos, ao que pensamos, em um decidido abandono do conhecimento sedimentado anteriormente. Ela põe entre parênteses qualquer mediação. Sem a mediação da ciência, da metafísica, da cultura. Seu propósito é voltar à experiência vivida (Lebenswelt) para cuidadosamente descrevê-la. Sem aventar hipóteses. 122 Trabalho apresentado na mesa "Fenomenologia e Psicanálise: o lugar do corpo na clínica " no II Simpósio Bienal SBPSP "Fronteiras da Psicanálise: a clínica em movimento" no dia 29 de agosto de 2020. 123 Membro efetivo da SBPSP, docente do instituto Durval Marcondes, psiquiatra pela Escola Paulista de Medicina, Doutora em Psicanálise pela PUC-SP. 202 A fenomenologia propõe um contato anti-conceitual, anti-predicadivo com o mundo. Suspendendo todos os julgamentos sobre as coisas para que delas recuperemos a presença. Trata-se do famoso "por entre parêntese (os juízos, os julgamentos), trata-se da redução fenomenológica, redução aos fenômenos. O método fenomenológico que permite fluir a intencionalidade da consciência em direção ao mundo revela a consciência como 'consciência de". A consciência é sempre consciência do mundo, a consciência não existe como uma entidade separada. Com essa concepção desaparece a separação homem/mundo, assim como a separação corpo/mente ou corpo/ psique ou corpo/alma. Essa é uma das elucidações básicas que encontramos nas primeiras linhas de qualquer livro introdutório à Fenomenologia. Voltar-se para as coisas não é voltar-se para a percepção dita objetiva, cotidiana, na qual se está alienado. É abrir-se para a percepção originária. Edmond Husserl, criador da fenomenologia foi autor da consigna: "voltar às coisas mesmas". Seus inúmeros seguidores na filosofia os quais se apropriaram, operaram mutações, desenvolveram a seu modo a Fenomenologia são Heiddeger, Merleau-Ponty, Lévinas entre vários outros. Provocou-se com a fenomenologia uma revolução na psicologia com a Psicologia da Forma ou Teoria da Gestalt; com a Psicologia Fenomenológica de Erwin Straus, com a psicopatologia de Carl Jaspers, com a psiquiatria existencial de Ludwig Binswanger. A psicanálise e a fenomenologia desencontram-se com Sartre que via o "Conselhos ao médico no decorrer do tratamento psicanalítico"), para tornar mais explícito nosso legado freudiano quanto à palavra, ao poder da palavra. Recorre também às reflexões de grandes artistas que se debruçam sobre seu fazer, sobre sua linguagem, tais como Paul Klee, Cézanne, Kandisky, Schoenberg. Convoca também W. Benjamin, o psicólogo fenomenólogo Erwin Straus, convoca Ferenczsi. Esse artigo de Fédida começa com uma declaração de Cézanne sobre o trabalho do pintor, em uma entrevista. O pintor deve se por, para Cézanne, como uma placa sensível, deve calar nele mesmo as vozes dos pré-julgamentos, "esquecer, esquecer, fazer silêncio ser um eco perfeito" 126 . O pintor deve se colocar, pensa Cézanne, como uma "superfície de ressonância linguageira onde se forma o nome das coisas" 127 . Assim ele irá ao encontro das coisas, do fenomênico "reunindo em um tom a atmosfera de todas as sensações. É um trabalho respeitoso das coisas." 128 Vemos aí uma declaração em perfeito acordo com o método fenomenológico. O que é preciso, em nosso campo, esquecer, esquecer para não acontecer aquilo que Fedida chama de catastrófico, ou seja, a surdez sensorial da linguagem ? 129 Poderíamos resumidamente dizer que o que deve ficar fora (entre parênteses) quanto à escuta analítica é a linguagem como logos, a logicização da língua em prol de seu poder informativo, a língua conceitual, a significação afastada da coisa, afastada do corpo. A linguagem dialógica, a fala cotidiana, convencional. Nosso âmbito é o da fala associativa e da escuta livremente distribuída. Para Fédida a escuta que tem como paradigma o poema é a escuta poética, escuta da criação do nome. Mas o que é o nome? Para chegar ao nome, ao significante puro, é necessário uma ruptura da semântica, da significação usual da linguagem. O signo, no nome da coisa, desaparece e dá nascimento ao puro nome. Temos no nome uma fala que está em ressonância com as coisas, com as imagens das coisas, que nos devolve a proximidade entre as palavras e as coisas, com o corpo e seus afetos. O nome provém de um vórtice, de um turbilhão que 126 Idem, p.7.
doi:10.5151/iisbsbpsp-27 fatcat:yrs4sgtfkvgwzk7temw7v7zq7y