O MACHO FEMININO E A FÊMEA MASCULINA – ANDROGINIA

Jorge José Serapião
2020 Revista Brasileira de Sexualidade Humana  
Este título nos remete a questão da androginia, isto é a mistura dos gêneros masculino e feminino. E será essa a questão de gênero sobre a qual desenvolveremos a maior parte de nossas considerações. Cabe, entretanto, analisar as demais vertentes que lidam com a imprecisão em se estabelecer uma diferença entre o masculino e o feminino. Na vertente biológica, o termo androginia é praticamente desconhecido, e as ambiguidades entre os sexos são designadas pelo termo intersexualidade. No mundo da
more » ... ade. No mundo da biologia a existência de dois sexos liga-se à reprodução sexuada, na qual os indivíduos distinguem-se pela capacidade de produzir gametas masculinos e femininos. Esses gametas se unem para criação de novos seres. Essa fusão determina (determinação sexual) se esses seres serão de um ou de outro sexo. Mais adiante, com o sexo biológico já determinado, esses novos seres vão se diferenciar (diferenciação sexual) em macho e fêmea ao longo de seu desenvolvimento embrionário. Os mecanismos de determinação e de diferenciação são bem precisos, embora possam ocorrer "falhas", o que redunda em imprecisões denominadas no mundo biológico de intersexualidade. Não é oportuna uma descrição detalhada dessas numerosas situações, por isso nos limitaremos a exemplificá-las com dois casos típicos: a Síndrome de Morris -indivíduo fenotipicamente (aparência externa) feminino portador de testículos; e a Síndrome de hiperplasia suprarrenal congênita feminina -indivíduo portador de ovários mas com aparência fenotípica masculina em decorrência de uma intensa virilização. Na Síndrome de Morris (também conhecida no passado por síndrome dos testículos femininizantes), simplificadamente, o indivíduo tem testículos (às vezes ectópicos) que produzem testosterona mas falta-lhes uma enzima, a 5 alfa redutase, que transformaria a testosterona em dehidrotestosterona, esta sim, ativa e capaz de fazê-lo fenotipicamente masculino, permanecendo assim, com aparência feminina. Na hiperplasia suprarrenal congênita feminina, o indivíduo é portador de ovários porém teve, ao longo de seu desenvolvimento embrionário, uma intensa exposição a hormônios masculinos produzidos por sua suprarrenal hiperfuncionante. Disso redunda o desenvolvimento de uma genitália ambígua e um fenótipo masculino por virilização. Ainda na vertente biológica, usa-se o termo "hermafrodita" para designar um indivíduo que tenha, ao mesmo tempo um ovário e um testículo, ou uma dessas gônadas associadas a um ovotestis (gônada com mistura de tecido ovariano e testicular). São situações raras denominadas de "hermafroditismo verdadeiro". O termo "pseudo hermafroditismo feminino" descreve os intersexos que têm ovários (por exem- TÓPICOS
doi:10.35919/rbsh.v23i1.214 fatcat:5siykg3h6rc2tm6xbxckmkuezq