Comentários sobre um texto de Bruno Latour

Otávio Velho
2005 Mana  
Esta é uma seção dedicada ao comentário de textos publicados em números anteriores de Mana. Estudos de Antropologia Social. O texto a seguir referese -mais diretamente -ao artigo de Bruno Latour, "'Não congelarás a imagem', ou: como não desentender o debate ciência-religião", publicado em Mana, 10(2), 2004. Em livro de entrevistas que Bruno Latour realizou com Michel Serres (Serres 1999 (Serres [1992 ), este autor faz a defesa da solidão no trabalho filosófico. Latour, por seu lado,
more » ... u lado, contrapõe-se e pergunta por que Serres não se reconhece como integrante de um conjunto de discussões e sequer cita os colegas (1999 [1992]:109-110). Serres, então, declara seu repúdio à era da tese, do jornal e da gagueira: "A honestidade, pelo contrário, consiste em só escrever o que se pensa e que se acredita ter inventado" (1999[1992]:110). Curiosamente, alguns anos mais tarde, em Jubiler ou les tourments de la parole religieuse (2002a), Latour dá a impressão (não totalmente exata, como veremos) de aderir ao mestre, até mesmo antecipando-se a este para realizar a obra de síntese que exige a abdicação de tudo o que se sabe para que se possa, enfim, inventar, e que Serres apresentava nas entrevistas como um ideal, ainda posto no futuro. Futuro que ele tinha pressa em alcançar. A (des)organização de Jubiler é sintomática: nenhuma citação, nenhuma nota, nem ao menos capítulos, mas um estilo bem afinado para servir à argumentação. A ponto de por vezes parecerem simples, assuntos que são altamente complexos, que na verdade desafiam e fazem duvidar se de fato nossa leitura é capaz de alcançar todas as nuances. Há uma série de intuições pontuais de Serres, que certamente inspiraram Latour a dialogar com ele implicitamente e, assim, desenvolver seu próprio pensamento (como no caso do fetiche, do interesse pelos tribunais, da relação entre Sócrates e Górgias e do contraste entre a multiplicidade MANA 11(1):297-310, 2005 COMENTÁRIOS SOBRE UM TEXTO DE BRUNO LATOUR Otávio Velho DEBATE das culturas e uma natureza supostamente única). Pois apesar disso, e de continuarem a compartilhar, Serres e Latour, a aposta num reencontro (ou em um novo contrato) entre humanos e não-humanos e no que Latour denominava, em certo momento, naturezas-culturas, ele consolida em Jubiler diferenças significativas em relação a Serres. Diferenças que vão além da já evidente descrença nas rupturas, contrastante com as posições do autor de Hominescências (Serres 2003[2001] ) -ode a uma nova humanidade, publicada originalmente em 2001 e que é praticamente contemporânea de Jubiler. Latour insiste nos limites da comunicação, no entanto central para Serres, desde muito antes, na figura de Hermes, erigido em patrono; e insiste também na distinção, a partir desses limites, entre os regimes de enunciação, quando em Serres, ao contrário, as articulações entre filosofia, literatura e ciência constituem um ponto de partida. Isso, apesar de o regime de enunciação do próprio Jubiler dar a impressão de estar no caminho da busca de uma fusão entre literatura e ciências sociais (contanto que não se pretendam "críticas"), sem falar da teologia. A insistência na distinção entre regimes de enunciação, ao que parece, seria parte de uma estratégia de defesa contra o cientificismo; ou seja, defesa contra a penetração e paralisia da política (e não só, como veremos) pela Ciência (no singular), com a politização clandestina das ciências (no plural) pela epistemologia, a que corresponderia uma Natureza igualmente singular (Latour 2004(Latour [1999). Enquanto Serres reclama do banimento da natureza, Latour reclama de sua invenção. Crítica, por sua vez, é palavra banida, já que associada à modernidade, à ruptura e, sobretudo, a Kant e à concepção de uma "revolução copernicana" que nos separa do passado: o esforço é por tornar-se cada vez menos crítico, aceitando a vida como ela é, de um modo que lembra (além de Nelson Rodrigues) o amor fati nietzschiano. Não se pode dizer, porém, que Jubiler constitua uma culminância, única, apesar de o título aparentemente referir-se à proclamação por Jesus da chegada do Reino de Deus (Lucas 4:15-22). Talvez porque essa expressão se inspire, por sua vez, no ano jubilar anunciado no Levítico (25:8-17), que deveria ser periódico. Estamos, de fato, diante de uma intertextualidade que (como no caso presente) dificulta, inclusive, o isolamento de qualquer dos elementos da cadeia. Os argumentos expostos estão ativos, antes e depois, em outros textos e de outras maneiras, constituindo-se, pois, Jubiler em uma elevação particularmente saliente em um caminho que, no entanto, prossegue, como num jubileu que sugere outros -parte de uma produção que espanta tanto pela qualidade, quanto pela quantidade. No próprio ano de 2002, por exemplo, além de Jubiler, Latour publicou outro livro significativo, La fabrique du droit: une ethnographie du Conseil d'État (2002b).
doi:10.1590/s0104-93132005000100010 fatcat:7sy2wgmwy5ep3g6mmvjalntumi