ESMERALDAS

ROVANA CHAVES
2012 Revista escrita  
Silêncio. Não sei se agora é dia ou noite. Meu corpo treme, talvez pela fome. Aqui neste minúsculo sótão não há o que fazer. O jeito é esperar, esperar que o mundo lá fora se acalme para que eu possa sair daqui e ver se algo ou alguém ainda me restam. Quando eu ouvia falar a respeito do final do universo, pensava ser besteira. Mas, agora, sinto na pele que não é. Órfã, 11 anos de idade, tendo nascido em um lar onde nada faltou material e nem emocionalmente, com pais dedicadíssimos, uma educação
more » ... simos, uma educação exemplar, agora estou sem casa, sem comida, sem cama, sem ninguém. Estou só. O lugar mais seguro que pude encontrar foi este esconderijo construído para armazenar coisas inúteis. Sou inútil agora. Vivendo neste nada, quase nada mais me resta. Apenas as esmeraldas. Mesmo que estejam arranhadas, continuam com seu valor. Tentaram tirálas de mim, mas não foi possível: fugi pra cá. Acredito que me esqueceram, até mesmo porque não estou vendo ninguém pelas frestas da parede velha. A porta teima em não abrir, mas preciso insistir. A força que me motiva a golpear com força a tranca antiga advém da sede e fome de viver, e se isso não for possível, pelo menos sobreviver. Com passos curtos, que aos poucos ganham velocidade, percorro o bairro todo destruído. Nunca me imaginei furtando, mas diante desta situação, não há outra alternativa. E depois, tirar dos mortos o que eles nunca mais vão poder comer, beber ou vestir, acho que não é pecado. Quando as pessoas estão sem cabeça em busca de comida e água, chegam a ser semelhantes ao animal que não pensa: a razão (que meu pai tanto falava) se perde e dá lugar à necessidade. Os dias sem banho, o cheiro de urina na minha roupa e no meu corpo agora não me incomodam, porque a fome e a sede são mais fortes. Residências, mercados, postos de gasolina, lojas, tudo destruído. E dizer que o próprio homem destrói tudo aquilo que cria. Não é nenhum Deus que faz o fim dos tempos, é o próprio homem em sua mesquinharia, em sua busca desenfreada por dinheiro, não dando importância se para atingir tais fins é necessário destruir o que estiver a sua volta. Estou cansada de revezar entre o andar e o correr, mas eu preciso colocar algo no estômago, senão serei mais uma neste conjunto de corpos pelo chão. Fecho os olhos e penso nos meus pais que tanta falta fazem. E no presente que me deixaram: as esmeraldas. Se neste nada ainda posso considerar que há riqueza, ela é a imagem fiel destas preciosidades que leguei de meus pais.
doi:10.17771/pucrio.escrita.20871 fatcat:ay6jdoodrbhqzn64mteeg24dza