A fascinação da compulsão tecnológica: sobre a racionalidade científica em Hans Jonas

Maurício Chiarello
2015 Scientiae Studia  
A fascinação da compulsão tecnológica: sobre a racionalidade científica em Hans Jonas Maurício Chiarello resumo Em que medida a proposta de uma nova ética para a civilização tecnológica, elaborada por Hans Jonas, possuiria o condão de convocar os cientistas para o efetivo exercício de sua responsabilidade perante à natureza ameaçada? O esclarecimento, que sua obra pretende levar a termo a respeito dos crescentes perigos associados ao progresso técnico-científico, não procura fundamentalmente
more » ... fundamentalmente refrear, em caráter emergencial, a cega compulsão de aplicação tecnológica, com os perversos efeitos associados à tecnologização e à mercantilização da ciência em nossos dias? Com efeito, sua crítica da ideologia legitimadora do progresso tecnocientífico procura, em última instância, debelar o processo compulsivo de aplicações tecnológicas, considerado perverso em si mesmo, não se permitindo considerar de que outra forma o progresso tecnocientífico poderia vir a desenvolver-se, de modo a tornar-se efetivamente capaz de atender valores humanos, sociais e ambientais. A partir da explicitação dos impasses a que conduz a proposta de Jonas, respaldamo-nos nos estudos de Hugh Lacey para apresentar uma forma alternativa de estruturação das atividades científicas. Visando suplantar esses impasses, procuramos investigar em que medida o desejável acolhimento de valores morais, sociais e ambientais, por parte das práticas científicas e tecnológicas vigentes, poderia estar conjugado com uma experiência propriamente estética capaz de propiciar a abertura à alteridade e o acolhimento de valores alheios. A investigação do concurso de uma experiência deste teor é realizada à luz de motivos de pensamento presentes nas obras de Theodor Adorno e Herbert Marcuse. Palavras-chave • Jonas. Dominação da natureza. Tecnociência. Controle. Valores. Experiência estética. Mímesis. Lacey. Adorno. Marcuse. Introdução No que concerne ao juízo relativo à tecnociência hodierna, assim como ao conceito de natureza instaurado pela ciência moderna, gostaríamos de assinalar, na obra de Hans Jonas, uma disjunção entre dois planos de argumentação que se afiguram insuficientemente articulados. Em primeiro lugar, observamos a existência de um plano argumentativo em que a crítica incide sobre o conceito de natureza próprio da ciência moderna, o qual legitima a dominação incessante e a exploração inesgotável do objeto natural. Segundo tal scientiae zudia, São Paulo, v. 13, n. 2, p. 369-95, 2015 A fascinação da compulsão tecnológica... scientiae zudia, São Paulo, v. 13, n. 2, p. 369-95, 2015
doi:10.1590/s1678-31662015000200006 fatcat:lqmopbagkfhfpbebfpq443ziaq